Mário Soares 1924-2017. “A política não pode ser uma maneira de subir na vida”

Mário Soares 1924-2017. “A política não pode ser uma maneira de subir na vida”

Por onde tem andado nestes últimos tempos? Por aí... sem parar. Nos últimos tempos fui ao Brasil e à Venezuela, duas vezes a cada, à Jordânia, a Paris, a Roma, a Madrid, a Marrocos, a Biarritz, etc. Não se cansa de todas essas viagens? Não, gosto de viajar, de conhecer novas terras e gentes. E durmo nos aviões... O que achou da Venezuela e de Hugo Chávez? Eu fui lá a convite do meu velho amigo Raul Morodo (ex-embaixador de Espanha em Portugal), que é agora embaixador em Caracas. Conhece toda a gente e segue com grande atenção a evolução do país. Chávez gosta muito dele, de o ouvir e de falar com ele. Eu sou amigo íntimo de Raul Morodo há mais de 40 anos. Insistiu comigo para lhe fazer uma visita e eu lá fui. Tinha curiosidade em conhecer o «fenómeno» (Hugo Chávez)! Não o conhecia pessoalmente? Não. E é parecido com Fidel? Não me parece. Tem uma estrutura mental e política diferente. (Soares levanta-se da secretária no escritório da Fundação Mário Soares para mostrar uma foto que está numa prateleira onde se vê Hugo Chávez a oferecer-lhe uma espada dourada, uma cópia da de Simon Bolívar, na presença de Raul Morodo e Pepe Bono) Já está aí na «galeria»? Não. Ficou aqui quando cheguei. E ainda não a levei para casa. Esta foto foi tirada da segunda vez que fui à Venezuela, em Abril passado. O que é que achou de Chávez? É um homem de convicções. Tem uma referência: Simon Bolívar. Acredita na integração da América Latina. Uma integração - como dizem - contra o domínio dos «gringos». Quer contribuir para fazer uma espécie de União Europeia na Ibero-América para o desenvolvimento sustentável da região. É um projecto político, de cooperação entre estados soberanos, voluntário, ambicioso e, ao contrário do que alguns insinuam, não militar. Chávez tem petróleo, gás e muito dinheiro. Aproximou-se de Cuba e de Fidel de Castro. E envia petróleo para os cubanos em troca de professores, médicos e enfermeiros. Um bom negócio para ambas as partes. Na primeira vez que fui à Venezuela, no seu mandato, convidou-me e ao Raul Morodo para darmos uma volta de avião. Fomos no avião presidencial, com vários ministros. O que tem esse avião? É um avião moderno, com várias salas, cómodo. Disseram-nos que o destino seria Maracaibo. Estava um calor imenso. Chegaram, entretanto, mais dois Presidentes da República, nos respectivos aviões: o da Colômbia, Álvaro Uribe, e o do Panamá, filho do velho Presidente Torrijo, do mesmo nome. Tratava-se da inauguração do gasoduto que irá levar gás para o Panamá, para a Colômbia e para as ilhas do Caribe. Chávez tenciona fazer outro canal em direcção ao sul, atravessando o Brasil até à Argentina, passando pela Bolívia, Paraguai e Uruguai. Quando cheguei a Maracaibo, comecei a pensar: «Que diabo, eu já estive aqui! Mas quando? Noutra encarnação?» Não me lembrava sequer do nome de Maracaibo. Talvez se tratasse de qualquer velho filme, pensei... Mas já lá tinha estado? De repente lembrei-me. Tinha lá estado, há vinte e tal anos, a convite do então Presidente Carlos Andrés Pérez, (ex-Presidente da Venezuela que vive agora em Miami), acompanhado do velho Presidente Romulo Bettancourt. Eu era então primeiro-ministro. Fui lá para assistir à cerimónia da nacionalização do petróleo, no tempo em que os comunistas portugueses me acusavam de travar as nacionalizações, no seguimento do 11 de Março... Sente saudades do tempo em que era eurodeputado? Não especialmente. Mas gostei muito de lá estar. Aprendi bastante quando fui parlamentar europeu, ao longo dos cinco anos do meu mandato. Porque eu cumpri o mandato para que fui eleito do princípio ao fim... Embora houvesse quem dissesse que ia desistir ao fim de meses... Pessoas que não me conhecem bem. Por exemplo: Paulo Portas disse que eu ia desistir, logo depois de ser eleito, que não me aguentava no Parlamento. Ele é que não se aguentou... Eu honro-me de nunca ter abandonado - e cumprir até ao fim - todos os cargos políticos para que fui eleito. Para mim, isso é uma questão de ética e de respeito pelo voto popular. Mas o senhor é um profissional... Profissional de quê? Nunca fui profissional da política. Não foi profissional da política? Não. Tornei-me político pela força das circunstâncias. Nunca encarei a política como carreira nem como profissão e nunca ganhei dinheiro com a política, sempre perdi. Fui líder do PS durante 13 anos e nunca aceitei um tostão do partido. Eu é que, muitas vezes, antes e depois de Abril, contribui com dinheiro do meu bolso, quando o partido estava aflito... Ainda olha para a política como uma missão? Nunca olhei de outra maneira. Fui educado num meio republicano em que se separava a política dos negócios. Tive várias profissões na vida. Comecei por me licenciar em Letras e fui professor. Depois licenciei-me em Direito e fui advogado. Quando estive no exílio em França fui professor em várias universidades, Vincennes, Rennes, Sorbonne. No meu regresso do exílio, o Zenha e eu resolvemos dar baixa na Ordem dos Advogados porque entendíamos que o advogado defende interesses privados e o político defende interesses públicos. As duas coisas são dificilmente conciliáveis. Hoje, na política, há um hábito perigoso que são os lóbis. Permitidos na América, parece que vão ser autorizados em Portugal. É um estímulo ao tráfico de influências. Agora as pessoas desejam entrar na política para melhor usufruírem, depois, de lugares em empresas. Está a desaparecer o sentimento de honra - e o prestígio - do exercício de funções públicas. O que é terrível para o futuro das democracias. Mas como limpar os partidos dos ambiciosos que querem apenas promoção social e pecuniária? Fazendo a pedagogia do serviço público, que é uma honra para quem o pratica de uma maneira séria e honrada. Não pode ser uma maneira de subir na vida ou, muito menos, de fazer fortuna. Ministros, deputados, autarcas, devem ser impolutos, em todos os planos, como os magistrados e os altos funcionários do Estado. Ora, o que se passa na sociedade actual - não só em Portugal - é o inverso. As pessoas acham que se um político morre pobre é parvo, porque não soube «arranjar-se»! Em sociedades sem valores - em que o dinheiro é tudo - desapareceu a sanção moral em relação aos políticos e aos funcionários públicos corruptos e não só a eles... Na fase do capitalismo financeiro-especulativo, em que vivemos, tudo é permitido. Vamos pagar essa excessiva permissividade muito cara. E os casos de pessoas que passam de um grupo económico para o governo e voltam ao grupo económico? Trata-se de um comportamento - uma espécie de promiscuidade - absolutamente condenável. E ainda é pior quando, sem vergonha, nos querem dar lições de ética. Tem-se visto muito ultimamente, alguns péssimos exemplos. Perante uma impunidade quase absoluta. Está a pensar em alguém específico? Não. Além do mais porque não sei, como diriam os Gato Fedorento, falar espanhol... Note, contudo, que o mal é geral. Não é só português. Reflicta no caso Wolfowitz e no seu comportamento abusivo e indecoroso como presidente do Banco Mundial. Vamos então considerar o assunto encerrado, e voltamos à política. Assistimos a um certo revivalismo salazarista a propósito dos «Grandes Portugueses». Uma das coisas que se comentava é que o Salazar entrou e saiu da política sem ganhar um tostão. Como avalia isto? Salazar nunca acumulou dinheiro. Tinha, tal como a geração dele, um certo desprezo pelo dinheiro. É verdade! Não era corrupto, mas foi corruptor. Era uma maneira de ter na mão alguns dos seus colaboradores, a quem dava rédea solta... Está a escrever sobre Salazar? Não. Pensei de facto fazer uma biografia de Salazar. Vivi mais de metade da minha vida consciente com o espectro de Salazar em cima de mim. Tenho curiosidade em perceber como é que Salazar durou tanto tempo, dominando algumas pessoas muito melhor dotadas intelectualmente do que ele... Mas agora tenho outros projectos literário-políticos em mãos. Veremos... Alguma vez falaram? Não, vi-o, em pessoa, uma única vez. Em 1940, andava eu no liceu, quando se preparava a inauguração do Estádio Nacional. Foi o professor Marques Pereira que organizou esse festival de ginástica, que acabava com um exercício em que dispunham os rapazes de modo a que os assistentes lessem: «Viva Portugal!» Na véspera, estávamos no ensaio geral, quando se ouviu: «Vem aí o Salazar! Vem aí o Salazar!» De repente entrou um velho senhor, já nesse tempo, vestido de preto, com um sobretudo pelas costas e um chapéu debruado e com um esbirro atrás que lhe trouxe uma cadeira, mesmo ao nível do relvado. Sentou-se e cruzou as pernas e eu vi, distintamente, que ele usava botas de elástico com atilhos... Como define a relação que existe actualmente com o dinheiro? O neoliberalismo deu às pessoas a ideia de que o mundo é uma selva e a selva é para os mais fortes, que se alimentam dos mais fracos. É o que se chama o «darwinismo social». A força, aliás, não se mede pelo músculo, mas pela carteira. Cada vez há mais pobres e maiores desigualdades e o que acontece a esses pobres? É indiferente: estão condenados a desaparecer. Neste momento há um relatório, nos Estados Unidos, onde se diz que o grande inimigo já não é o terrorismo, mas o perigo que podem representar as populações do Sul, famintas, vítimas do subdesenvolvimento e das catástrofes naturais, procurando desesperadamente entrar nos países ricos do Norte. E a única resposta possível - diz o relatório - será a sua exterminação em massa. Vejam! Trata-se de preconizar o regresso à barbárie... Depois do humanismo iluminista e, apesar de tudo, de dois séculos de progresso. Já existem muitas cidades com cinturas de pobreza. Há muito tempo! Mas o problema tem vindo a agravar-se, na América do Norte, na União Europeia e não só. Não é agradável para ninguém, bem formado, viver em condomínios altamente protegidos, num contexto de miséria em redor e que espreita... Haverá revoltas, grandes confrontações, talvez guerras. Só vejo uma forma de evitar os conflitos e porventura as revoluções que se preparam. Fazer reformas a sério, progressivas. Não contra-reformas. Não é acabar com o Estado, deixar os ossos ao Estado e a carne aos privados. Isso não é uma reforma. É uma contra-reforma. Todos os dias se fala no desmantelamento do Estado. Privatiza-se a saúde, a administração... ... os cemitérios... O que é que resta ao Estado? D. João II disse: «Meu pai deixou-me Rei das estradas de Portugal.» Hoje, nem isso. As auto-estradas são privadas. Mas não entremos em pânico. A concepção neoliberal da vida e da sociedade está a esgotar-se. Bush cometeu tais erros, para não dizer pior, que acabou com a atracção do neoliberalismo e com a globalização economicista que sucederam ao fim do comunismo. Quando 63% dos americanos dizem hoje que querem um Serviço Nacional de Saúde universal e gratuito é porque já estão a ver o mundo de outra maneira. A catástrofe de Nova Orleãs ajudou. É inevitável! Quem é o seu candidato preferido nas próximas eleições americanas? Neste momento, é o Obama. Mas se Al Gore se apresentar teria de reponderar a questão... Tem ido aos Estados Unidos? Desde que há novas normas de segurança, deixei de ir. Já tive vários convites, mas não estou disposto a estar ali horas a ser fiscalizado, a preencher papéis e a responder às perguntas, nem sempre inteligentes, que os agentes fazem na fronteira. Muita gente interroga-se como é que um homem que foi aliado de Frank Carlucci é hoje um feroz anti-americano. Nunca fui aliado de Carlucci. No PREC convivi muito com ele, porque percebeu, com inteligência, que só o PS podia derrotar os comunistas, como aconteceu. Nunca fui também feroz anti-americano. Fui - e sou - anti-Bush e a favor desta nova vaga americana que está a nascer. O próximo presidente norte-americano vai herdar o pesadelo do Iraque. Como resolver esta situação? Como se resolveu o Vietname. Retirando as tropas e ajudando aqueles países a lutar de outra forma contra o terrorismo. Mais inteligente e informada. No respeito dos nossos valores humanistas. O Iraque é um campo de treino de terroristas, como o Afeganistão ou o Líbano. Bush - e os seus amigos neoconservadores - fizeram coisas que tocam o absurdo. Se havia algum equilíbrio entre os árabes era pelo facto de os xiitas estarem contidos no Irão. O Iraque era um tampão. O Irão tornou-se uma grande potência na região. Destruiu-se o tampão e agora é um caso difícil. Mas os muçulmanos, retiradas as tropas americanas - se forem ajudados e acabarem as humilhações -, vão encarregar-se de restabelecer os equilíbrios. No Brasil, Lula foi um desapontamento? De modo algum. Lula é um grande político e sobreviveu ao «mensalão». Vive hoje uma situação complexa. Foi o grande líder da esquerda ibero-americana. Por razões nacionais, brasileiras, teve de fazer alguns compromissos. Isso levou a poderem criar-se imagens exteriores desagradáveis, como aconteceu quando se deixou fotografar a abraçar Bush. O Bush, mais alto do que Lula, apareceu a dar-lhe um abraço e Lula com a cabeça no peito de Bush... O Chávez perguntou-me, a rir: «Você gostou daquela fotografia?» Eu respondi-lhe: «Claro que não!» Quem é que gosta de ver o nosso amigo e respeitado Lula numa tal pose? É preciso, contudo, perceber que Lula foi sempre um sindicalista. Ora, um sindicalista quer arrancar benefícios ao patrão. É a sua luta. Arrancou alguns benefícios para o Brasil a Bush (julgo) e estava contente. A foto foi um acidente de percurso. Na Europa, um escândalo tipo «mensalão» seria intolerável e um político não sobreviveria. Porque é que devemos aplicar ao Brasil um paradigma diferente? Nunca ninguém defendeu o «mensalão». Nem o próprio Lula. Quem diz o Brasil diz o caso venezuelano, que não é exactamente o modelo democrático do Ocidente. Mas nós não podemos impingir os nossos modelos aos outros. Não somos o centro do Mundo, nem a cabeça de nenhum império. Os nossos modelos, no plano retórico, são excelentes; mas na prática são menos entusiasmantes. Viu-se coisa pior do que Guantánamo? Ninguém fala disso porque todos estão à espera que Bush desapareça. Como lidar com isso? Não podemos pensar que somos donos do Mundo e impor os nossos valores. Embora haja valores universais. Os que constam da Declaração Universal dos Direitos Humanos, por exemplo. Eu gosto de ver as mulheres com os cabelos ao vento, as suas caras e os seus olhares. Não gosto de as ver como vi, no Irão, com um chador, uma capa preta. Mas o multiculturalismo é o caminho do futuro. Temos que aceitar o direito à diferença. E a verdade é que o Ocidente nem sempre cumpre o que proclama. Vejam-se os Objectivos do Milénio. Temos um primeiro-ministro que diz ter honra em ser comparado a Tony Blair. O que acha disso? Sabe a opinião negativa que sempre tive de Blair. Por isso não gosto. E já lho disse. Felizmente, Sócrates agora já não fala de Blair. Elogia Zapatero que, esse sim, é um homem de esquerda e um excelente primeiro-ministro. Tem estado a fazer pedagogia junto do primeiro-ministro? Que ideia! Não, obviamente. Eu não conhecia bem Sócrates antes da última campanha presidencial. Fui para a campanha com um conhecimento mínimo do actual partido, de que estava afastado há vinte anos e, como se sabe, em condições de última hora. Comprometi-me com Sócrates e aceitei avançar em certas condições. Sócrates cumpriu tudo o que combinámos. Fiquei com respeito e amizade por ele. Mas há coisas que me desagradam nele. Somos muito diferentes, com culturas e formações diferentes. É natural. Quando ele se disse próximo de Blair fiquei, confesso, chocado. Gostaria mais que tivesse outras referências. Mesmo entre os anglo-saxões. Mas as coisas e as pessoas são o que são: não o que desejamos que sejam! Não acha que Sócrates é alguém que está a aprender a ser primeiro-ministro no próprio exercício do lugar? Acontece com todos os primeiros-ministros, inteligentes. Sócrates - note-se - tem provado ter ideias claras, coragem na sua aplicação e ser determinado. É muito importante. Conseguiu para Portugal, com a ajuda preciosa do ministro das Finanças, realizar um feito histórico, dado o ponto de que partimos: vamos chegar à presidência da UE com menos 3% de défice, conseguindo respeitar o Pacto de Desenvolvimento e Estabilidade. Isso dá-nos prestígio e autoridade para exercer uma boa presidência, que pode marcar a União de uma forma positiva. Agora sei, por experiência própria, que não se podem fazer omeletas sem partir ovos. Teve de enfrentar corporações, fortes e organizadas, descontentou muita gente ao mesmo tempo. Nem sempre explicou bem as medidas tomadas. Certos ministros não funcionam bem. Cometem erros. Ninguém é perfeito. Mas o balanço que até agora apresentou é, do meu ponto de vista, positivo. Quais os ministros que não funcionam? Não tenho por hábito classificar ministros, nem nunca caí no ridículo de dar notas aos homens políticos. Para isso é preciso ter um ego blindado a todo o sentido de autocrítica. Não é o meu caso. Há, no Governo Sócrates, excepcionais ministros e outros menos bons. Mas a quem cabe perceber isso - e ele percebe - é ao próprio primeiro-ministro. Em dois anos de Governo, Sócrates acumulou demasiadas más vontades. Na classe média, no povo, no seu eleitorado tradicional. É tempo, julgo, de corrigir o rumo, pensando mais à esquerda. É daí, de resto, que vai soprar o vento, vindo donde menos se esperaria: da América do Norte. No jantar do 34.º aniversário do PS tentou salvar a cabeça de Sócrates depois de toda a trapalhada com o estranho diploma. Não é essa a minha leitura da cerimónia do aniversário. Essa «trapalhada», como diz, foi, sobretudo, um aproveitamento político e escandaloso de certas áreas da direita, aproveitado, obviamente, com exagero e impudor, por alguma comunicação social. A universidade envolvida já foi alvo de investigaação e indicado o seu encerramento, o que me parece positivo. O próprio primeiro-ministro tinha dito que era uma universidade de prestígio. O senhor fez um discurso contra os jornais dizendo que era uma conspiração de direita. Não se deixou arrebatar por esse entusiasmo? Acho que não. Foi, pelo menos, a minha leitura política do caso, que tem obviamente uma dimensão política. Houve uma parte da sociedade portuguesa, muito conservadora, que não ousava criticar a governação de Sócrates e que, todos os dias, rezava para que ele conseguisse reduzir significativamente o défice público. Quando lhe pareceu que o objectivo estava alcançado, então tornou-se apetitoso dar um primeiro sinal de que o trabalho difícil e indispensável estava feito. Sócrates deixava, quanto a eles, de ser essencial. Daí a tentativa de lhe atirar à cabeça, para o desprestigiar. Mas foi um tiro no pé. A mim sucedeu-me o mesmo, duas vezes, quando estive no governo. Não há paralelo... Os tempos são outros. Mais cruéis e com maior irresponsabilidade. Realmente, nunca fui vítima de uma campanha tão desagradável e personalizada como a que fizeram a Sócrates e antes - não o esqueçam - a Ferro Rodrigues. Quando alguém avança para uma obra como a Ota e depois revela falta de escrúpulos na sua carreira universitária, será que se pode confiar nele? Desculparão, mas não considero a vossa pergunta nem rigorosa nem correcta. Conheço muitos técnicos de Engenharia que são tratados correntemente por engenheiros. A licenciatura da Universidade Independente tem pouco valor? Parece que sim, tanto que a universidade foi encerrada. Mas que tem isso a ver com o caso da Ota? Será que a falta de diplomas académicos de Jacques Delors o impediu de ser o melhor presidente da União Europeia de todos os tempos? Quando o partido o chama, sente que tem que ir? Há mais de vinte anos que não tenho quaisquer funções nas estruturas partidárias. Mas não deixei de ser socialista, como é reconhecido. Recebo convites - demasiados - para falar nas mais diversas instituições, nacionais e internacionais, socialistas ou não. Quando entendo que os devo aceitar, vou. É tão simples, como isto. Não precisa de ter funções... É verdade. Reconheço que para alguns portugueses sou uma referência, aliás, hoje mais do que quando tinha funções partidárias. Quando me convidaram para falar no 34.º aniversário do partido, como um dos seus fundadores, limitei-me a perguntar: «Para quê? Para falar ou para dar vivas?» Responderam-me: «Só falarás tu e o líder do partido. E falas sobre o que quiseres e o tempo que quiseres». Assim fiz. Se leram o meu discurso verificarão que não tenho que me arrepender de nenhuma palavra que lá está. Qual a diferença entre o PS liderado por Sócrates e o PS de Mário Soares? Como lhes disse, os tempos são outros - muito diferentes - e as conjunturas nacionais muito diversas. Além disso, somos pessoas diferentes, de gerações diferentes, com culturas diferentes. Podia ser pai do Sócrates, ele é mais novo do que o meu filho mais velho. Que traços no partido são diferentes? O tempo e o modo. E os militantes. As conjunturas internacionais, nos planos político, social e cultural. Eu vivi a «Guerra Fria» e até a Guerra Civil espanhola e a II Guerra Mundial. Tempos de breves debates ideológicos. Sócrates é um político pós-«Guerra Fria». Eu tive que lutar contra o perigo das excessivas nacionalizações e ele tem que lutar contra o perigo das excessivas privatizações. É uma diferença abissal! Mas o PS está agora mais à esquerda ou mais à direita? Para mim, o PS é - e sempre foi - um partido de esquerda. No PREC foi atacado como sendo de direita. Alguns chegaram a chamar-me «o homem dos americanos»! Como escreveu Camões: «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades». As conjunturas condicionam as políticas. Mas quem é de esquerda, a sério, politicamente articulado e coerente, morre de esquerda. Não estará Sócrates a pôr o socialismo na gaveta? Isso é uma velha frase. O socialismo que foi posto na gaveta foi o socialismo totalitário. E muito bem! Esse está em vias de desaparecimento. A «guerra» de Sócrates, penso, é outra: o défice, o despesismo, o enfraquecimento do Estado, o negocismo, a corrupção. O socialismo democrático representa o reformismo progressista. Promover políticas sociais sérias para evitar conflitos, confrontações, um Estado ingovernável. Sócrates é um pragmático? É, seguramente, mais pragmático do que ideólogo. Na actual conjuntura não penso que isso seja negativo. Mas as conjunturas mudam. Acha que o seu filho, João Soares, faria um bom papel, de novo na Câmara Municipal de Lisboa? Objectivamente, acho que foi um bom presidente da Câmara. Muita gente assim o julga. Mas hoje o problema não se põe. O partido escolheu António Costa. Há que apoiá-lo, como o João foi dos primeiros a fazer. A situação da Câmara de Lisboa é tão calamitosa, desceu tão baixo em matéria político-administrativa, que é um acto de grande coragem António Costa ter aceite o desafio. Por mim, apoio-o. Já o disse. E a presidência de Cavaco Silva, corresponde ao que esperava? Tem sido uma presidência sem surpresas. Acho que Cavaco Silva tem sido correcto, discreto, pouco interventor, muito prudente. Mas não cometeu grandes erros. Um único reparo: a Madeira. Fez um apelo para que não houvesse inaugurações durante a campanha. Ora, o prato principal da campanha de Jardim foram as inaugurações. E o Presidente ficou silencioso. Poderá entender-se o seu comportamento como uma cedência, a confirmar a impunidade de Jardim? O facto é que, até agora, nunca se conseguiu meter Alberto João Jardim na ordem e ele voltou a ter uma maioria esmagadora. Sócrates teve a coragem de dizer: basta! Espero que não recue. Quanto à maioria obtida por Jardim, não surpreende. Mas não vai resolver nada. Há anos, aconselhei o Dr. Jardim, que tem qualidades, a seguir o caminho inteligente de Mota Amaral. Não é possível, em democracia, estar décadas a fio como presidente do Governo, mesmo ganhando eleições. Não é politicamente saudável, em democracia, a começar por quem exerce o poder. Não me ouviu. Os anos passam e a situação vai ser cada mais difícil para ele, apesar da fraqueza da oposição. É pena! Devia ter passado, a tempo, para o Continente e fazer outra coisa. O quê, por exemplo? Podia ter sido parlamentar, ministro, embaixador, jornalista. O que lhe apetecesse. Quando fez a sua última campanha presidencial, sentiu o gosto de voltar a ter o contacto da rua? Senti, não o nego. Gosto dos meus compatriotas, mulheres e homens, gosto de sentir o calor do entusiasmo popular e entendi-me particularmente bem com os jovens. Com os da minha faixa etária é que foi o diabo: não compreenderam a minha insistência. Achavam que devia estar, como eles, a ver televisão, com uma manta sobre os joelhos. Quando perdeu as eleições disse-se que seria o fim de Mário Soares. O que acha destes comentários? O fim, irremediável, vem com a morte. Ora, eu, felizmente, estou vivo, sinto-me bem, tenho projectos e, sobretudo, continuo com a mesma alegria de viver que sempre tive. A derrota eleitoral não me afectou nada, nos planos psicológico e pessoal. Deu-me até uma certa sensação de alívio. Estamos a atravessar uma fase difícil, como portugueses, ibéricos, europeus e cidadãos do Mundo. Sou um observador curioso e atento dessas realidades. A imprevisibilidade dos eventos que se sucedem, apaixona-me. Intervenho, debato as questões que estão na ordem do dia com os amigos, escrevo artigos, livros, faço conferências. Sei que para alguns continuo a ser uma referência. Digo a verdade. Não desisti de combater pelas causas em que acredito. Não faço política partidária. Isso é o passado. Nem exerço quaisquer funções políticas, com a excepção constitucional de ser conselheiro de Estado. No último ano, publiquei um livro em parceria com o meu amigo Federico Mayor. Tenho que manter esta casa (Fundação Mário Soares), que é um centro de cultura e de debate, aberta aos interessados. Fazemos colóquios, alguns muito originais. Temos um enorme Arquivo, um Centro de Paz para a Resolução de Conflitos, um Museu nas Cortes (Leiria). Passamos filmes e organizamos exposições. Lançamos livros. Não ganho, claro, um tostão como presidente da Fundação. Tenho que arranjar dinheiro para a manter, através do mecenato e de ajudas diversas. Sou, além disso, presidente da Fundação Portugal-África, com sede no Porto. Para além de obrigações e compromissos internacionais. Se tiverem curiosidade de ver as minhas agendas, verificarão que estou mais ocupado do que nunca. Como dizia o saudoso Azeredo Perdigão: «Parar é morrer». Se tivesse que recomeçar a carreira política, teria escapado ileso à imprensa tablóide que procura a vida privada? Já lhes disse, a política, para mim, nunca foi uma carreira. Entendi-a sempre como um dever cívico e um serviço à comunidade. Quanto à imprensa tablóide, não a leio, confesso. Acho uma perda de tempo, com tanta coisa interessante para ler. Mas a minha vida privada é transparente e conhecida. Na última campanha eleitoral meteram-se comigo, sobretudo quanto à minha idade: «Ele está velho» e subliminarmente insinuava-se que estaria ou podia vir a estar gagá. Provei, com uma campanha intensa e muito exposta, de «proximidade», como disse, que não estava. O que é que lê? Recebo o «Diário de Notícias» de manhã, que folheio, distraidamente, num quarto de hora. Desapareceram os bons comentaristas como Medeiros Ferreira, Joana Amaral Dias, Vicente Jorge Silva, Alfredo Barroso. Já não compro o «Público». Procuro lê-lo, sem o comprar, aos fins-de-semana, por causa do Vasco Pulido Valente, do frei Bento Domingues e do António Barreto, e às vezes os artigos da Teresa de Sousa e da Constança Cunha e Sá. Os telejornais, todos iguais, são uma maçadoria ou tragédias, para alimentar o pessimismo nacional. Há um ou outro programa bom, sempre a horas tardias. O «Contra-informação» e o «Gato Fedorento» divertem-me, francamente. Representam uma réstia de liberdade crítica. E os programas do Mário Crespo, na SIC Notícias, também procuro ver. Infelizmente, os meios de comunicação social que temos contribuem poderosamente para o ambiente de mediocridade cinzenta que se vive hoje no nosso país. Não se trata de uma excepção nacional. É um problema do Ocidente. Gravíssimo. Para o qual alertou Karl Popper, em tempo. A liberdade de imprensa, apesar de não haver censura, corre o risco de ser condicionada, e, por sua vez, condicionadora. Mas há sinais de reacções positivas. Na própria América. Estão a ver? Agora voltei a ser «amigo dos americanos»! É optimista militante? Sou optimista por razões filosóficas e ontológicas. Acredito na espécie humana e no progresso.Todos somos dotados da capacidade de distinguir o bem do mal, todos temos uma certa consciência crítica. Assim, quando menos se espera, o mundo «salta e avança» no sentido do humanismo universalista, como se afirma num dos poemas de António Gedeão, ou seja, Rómulo de Carvalho. Ser Presidente da República foi para si o mais importante na sua vida? Se vocês me perguntassem se eu gostaria mais de ter escrito um só livro da qualidade dos de Eça ou ter sido Presidente da República, eu dir-vos-ia, sem hesitações, que gostaria mais de ter escrito um grande romance como Os Maias. Mas, enfim, cada um é para o que nasce. O destino individual só em parte se fabrica, o resto é produto dos empurrões da vida. No seu caso não é verdade. É o que sinto. Escrevi alguns livros de que não me envergonho, mas podia ter-me dedicado mais à escrita. Fui por outro caminho. Ao contrário de Mitterrand, que era um político que tinha um escritor dentro dele, não parece ser esse o seu caso. Não parece que existisse um Garcia Márquez ou um Eça de Queiroz dentro de si, lutando por sair. Admito que não. Têm toda a razão. Mas o desgosto cá está, dentro de mim. Como sucede com tantos escritores frustrados. Quem são actualmente os grandes líderes que marcam o mundo? O Nelson Mandela, o Gorbachev... Mas o tempo - e a mediocridade em que vivemos, neste início de século - não corre favorável ao aparecimentos de grandes líderes. Kofi Annan é um homem que saiu muito bem no final do seu mandato. Se formos aos mortos, mas ainda meus contemporâneos, dir-vos-ei: Willy Brandt, De Gaulle, Mitterrand, Churchill, Roosevelt, Nenni, Kreisky, Ghandi, Nehru, Senghor, Arafat, Rabin... E dos que estão no activo? O Zapatero, de quem gosto muito, a Presidente da Finlândia, Tarja Halonen, Vaclav Havel, Mary Robinson, Delors, Ségolène Royale... e muitos outros que estão a surgir. Os difíceis tempos que aí vêm suscitam grandes e corajosos líderes. Qual a sua opinião sobre Durão Barroso? Não gostei nada que tivesse abandonado o Governo para ir para um cargo europeu, depois de nos ter garantido que ficaria para resolver os problemas do país. Disse-lhe isso, na devida altura, numa reunião do Conselho de Estado. Mas, claro, foi, com os resultados negativos que se conhecem. Tem feito, nos últimos tempos, alguma coisa no sentido de melhorar a sua posição. Foi, num certo tempo, um homem do Blair, anfitrião na condenável Cimeira dos Açores. Agora, tem feito uma certa evolução. Está a aproximar-se, parece, dos alemães e da senhora Merkel. É melhor. De resto, um segundo mandato aproxima-se. E parece possível. Fora do seu percurso político sinuoso, não tenho nada contra Durão Barroso. No tempo em que foi ministro dos Estrangeiros mantivemos sempre muito cordiais relações. Recebemos muitos fundos da Europa, mas estamos de tanga, não acha? Não estamos nada de tanga. Portugal é um país com grandes potencialidades. Um país de futuro, graças à criatividade dos seus filhos e às nossas condições naturais. Não há nenhuma razão para o pessimismo português, instalado, sobretudo, em certas falsas elites. É verdade que há muita gente a viver mal. É verdade que assistimos a uma nova vaga de emigração. Mas, em contrapartida, recebemos cerca de 600 mil imigrantes de várias procedências. Os portugueses não querem fazer certos trabalhos mais pesados, que hoje consideram degradantes. É um sinal de progresso.O nível de vida do português médio aumentou muito desde a Revolução dos Cravos. As expectativas também. Há elites portuguesas com reputação mundial, em todas as áreas: no desporto (e não só no futebol), nos mundos da ciência, das artes, da literatura, da filosofia, do pensamento em geral. Mas também entre os técnicos e o empresariado. Portugal é - e vai ser cada vez mais - um grande país com prestígio e reconhecimento mundial e no âmbito da CPLP. Não tenho nenhuma dúvida a esse respeito. O que é que acha que dirão de si depois de não estar cá? Isso é uma obsessão vossa. Não minha. Nem me interessa. Acho que não dirão grande coisa. Devem ter coisas bem mais interessantes de que falar. Tem alguma nostalgia da não crença, de não acreditar em Deus? Nostalgia? Por que razão? Não acredito porque no meu sistema racional o problema de Deus não se encaixa. Acreditar que há um Deus, que está algures, no universo, para recompensar e julgar as pessoas que andam cá por baixo é algo que para mim não faz sentido. Como não faz sentido a imortalidade da alma. Com o que conheço da ciência, não faz sentido. Não creio na existência de um Deus, muito menos, antropomorfo. Mas não nego a sua existência como uma forma de energia. Há um mistério que subsiste. Por isso não sou ateu, mas sim agnóstico. Não é para si? Não. Isso choca-vos? Estou convencido que depois de morrer acabou tudo. Não há mais nada. Nem recompensas nem castigos. O meu pai, a minha mãe, os meus entes queridos, os que morreram, morreram, acabou-se. Fica em nós a memória deles. É tudo. Mais nada. E a memória vai desvanecendo, com a passagem das gerações. É triste, reconheço. Daí a força das religiões, criadas pelos homens desde a mais remota antiguidade. Mas é também por isso que, não acreditando em recompensas eternas, manter até ao fim um comportamento rigoroso e ético, sem acreditar na outra vida, é algo que implica uma grande coragem e sentido de responsabilidade pessoal. E o problema da imortalidade? Gostava de ter a sua cara numa nota de banco, por exemplo? Sinceramente, não seria o meu ideal! Quando via a efígie de António Sérgio, um intelectual puro, sem sombra de interesse pelo dinheiro, nas nossas antigas notas de mil escudos ficava horrorizado. Politicamente, quer fazer outras coisas? Quero continuar a reflectir politicamente, a escrever artigos, livros, a participar em debates... Adoro discutir ideias. Acho que tenho uma experiência - e uma vasta informação actualizada - que me dá a possibilidade de não dizer disparates quando as pessoas me convidam para falar. Digo sempre a verdade. Melhor: aquilo que penso ser a verdade. Como não tenho nada a ganhar e nada a perder, sinto-me muito solto e livre. E gosto de partilhar a ampla experiência que adquiri ao longo da vida. É uma forma de dar aos outros aquilo que recebi dos outros, que foi imenso. Nessa «imortalidade», no espaço de algumas poucas gerações, acredito.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 9 de Junho de 2

29/03/2017 21:57:08