O adeus a Soares

O adeus a Soares

Filipe, Temer e Schulz no funeral de Mário Soares

O funeral de Mário Soares, que se realiza às 15:30, vai contar com a presença de vários chefes de Estado e de Governo, entre os quais o rei de Espanha, Filipe VI, e o presidente do Brasil, Michel Temer.
BRUNO SIMÕES

O funeral de Mário Soares, que se realiza esta tarde em Lisboa, vai contar com a presença do chefe de Estado de Espanha, Filipe VI, e do presidente do Brasil, Michel Temer. Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, também estará presente, enquanto o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, vai fazer-se representar pelo comissário Carlos Moedas. O funeral contará ainda com a presença de vários governantes de países africanos de língua portuguesa.

O Presidente da República vai receber, em audiência, Martin Schulz, às 10:30, Michel Temer às 11:00 e Filipe VI às 11:30. Ao meiodia, Marcelo Rebelo de Sousa receberá os restantes individualidades estrangeiras que vão marcar presença no funeral de Mário Soares, cuja urna estará em câmara ardente no Mosteiro dos Jerónimos entre as 8:00 e as 11:00.

Marcarão ainda presença no funeral de Mário Soares o presidente da República da Guiné-Bissau, José Mário Vaz, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Marcelino Medina González, bem como o ministro das Relações Externas e da Cooperação de Espanha, Alfonso Dastis. Fernando da Piedade Dias dos Santos, presidente da Assembleia Nacional angolana, vai representar o país nas cerimónias fúnebres.

O ex-primeiro-ministro espanhol, Felipe González, também vai ao funeral de Mário Soares, bem como Lionel Jospin, que foi primeiro-ministro de França, e o expresidente do Brasil José Sarney.

O ex-presidente da Comissão Europeia Jacques Santer também estará presente.

A sessão evocativa de homenagem a Mário Soares começa às 13:00 no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, e terá a duração de cerca de uma hora e meia, escreveu a Lusa. A cerimónia será preenchida por diversos momentos musicais, com o hino nacional a abrir e a terminar, e vai contar com a intervenção dos filhos, João e Isabel Soares. Será também transmitida uma intervenção áudio de Maria Barroso, a mulher de Mário Soares, falecida no ano passado.

Será depois transmitido o vídeo de cerca de 10 minutos em que António Costa - que estará ausente do funeral por estar em viagem à Índia - vai homenagear Mário Soares. Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, também vai usar da palavra. A última intervenção na cerimónia nos Jerónimos caberá a Marcelo Rebelo de Sousa.

O cortejo fúnebre encaminhase depois para o cemitério dos Prazeres, fazendo, pelo caminho, breves paragens em frente à Assembleia da República, à Fundação Mário Soares e à sede nacional do PS, no Largo do Rato. A urna de Mário Soares deverá chegar aos Prazeres às 15:30, hora em que começa o funeral com honras de Estado. Quando a bandeira que cobre a urna de Soares for recolhida, um navio da Armada estacionado no Tejo vai disparar uma salva de 21 tiros.

A despedida do "político irrepetível"

Um corrupio de gente passou pelos Mosteiro dos Jerónimos. Muitos políticos, muitas caras conhecidas e muitos, ainda mais, rostos anónimos, que quiseram prestar a última homenagem a Mário Soares. O dia foi de despedidas e de elogios.

"As pessoas já não se lembram, mas ele sempre gostou muito de rosas amarelas."

Maria Emília Duque, 66 anos, militante socialista, tem na mão os autocolantes da campanha de Soares à Presidência da República em 1986, a tal em que começou com as sondagens a darem-lhe 8% e em que acabou vencedor. "Soares é fixe", lê-se num deles. No outro uma rosa amarela a apelar ao voto no PS.

"São recordações, diz Maria Emília

"Tinha que vir aqui. Mário Soares foi um grande político. É muito difícil ser como ele".

Um "homem único", um "político irrepetível". Ao longo do dia, em dezenas de comentários que foram sendo proferidos pelas muitas figuras públicas que quiseram prestar homenagem a Mário Soares, a ideia foi repetida até à exaustão: deixou uma marca muito pessoal na política portuguesa e na história de democracia do país.

Emília Duque, com as suas lembranças de campanhas soaristas foi de manhã cedo para a Praça do Município, o primeiro local onde a cidade prestou homenagem ao ex-presidente. O cortejo fúnebre, que passara primeiro pela casa do Campo Grande onde sempre viveu a família Soares, atravessou a cidade e em frente à câmara municipal a uma foi trasladada para um armão da GNR, puxado a cavalo, que a levou até Belém. Jonas e Lilá, os netos mais novos, entregaram à GNR duas das mais de 60 condecorações que o avô recebeu ao longo dos anos e que o acompanharam até ao Mosteiro dos Jerónimos, naquele que foi um dos primeiros momentos solenes do dia.

Sobre a uma, apenas uma bandeira da República e a enfeitar o carro, rosas amarelas. As tais de que Soares gostava muito. Fernando Medina, num gesto cheio de simbolismo, juntou-lhes um cravo vermelho. Mais tarde, em declarações aos jornalistas, diria, emocionado, que Soares "deixou um legado imortal" de "valores por que vale a pena continuar a lutar e um grande exemplo de dedicação, coragem, luta pela democracia e pela tolerância".

Passava pouco da uma da tarde quando o cortejo fúnebre, acompanhado por 84 cavalos da GNR chegou a Belém, onde foi recebido por centenas de pessoas aguardavam e foi no meio de um forte aplauso que a urna entrou no Mosteiro, ao som da Marcha Fúnebre tocada pela banda da GNR.

No final, uma voz no meio da multidão gritou "Soares é fixe" e várias outras se lhe juntaram, recuperando o tal slogan da campanha de 86. Do lado de lá das baias colocadas pela polícia para impedir a passagem agitavam-se bandeiras e viam-se cravos vermelhos no ar.

"Foi muito importante contra o fascismo"

Margarida, Lourenço, Carolina, Mariana, Beatriz, Leonor. Têm todos 14 anos, andam no 9.° ano e sabem muito bem quem foi Mário Soares. "Foi uma pessoa corajosa."

"Teve uma grande carreira política". "Foi muito importante contra o fascismo". São alunos do Colégio Moderno, pertencente à família Soares, e conheciam o ex-Presidente de o ver por lá, na escola ou na rua, que é a mesma da casa dele.

"Cumprimentava sempre toda a gente, era tipo o pai do nosso colégio". Estão todos na fila para entrar na Sala dos Azulejos, no Mosteiro, onde o corpo de Mário Soares se encontra em câmara ardente e onde querem cumprimentar a filha, Isabel Soares, directora do Colégio Moderno.

Uma fila longa. Formou-se ao início da tarde, quando se abriram as portas aos populares, e manteve-se quase ininterrupta até à noite. Só familiares, amigos e figuras públicas entravam directamente, de acordo com o protocolo gerido pelo Ministério dos negócios Estrangeiros, uma vez que é funeral com honras de Estado.

Houve, no entanto, quem optasse por ir para a fila dos populares, como José Sócrates, que apareceu a meio da tarde. A saída disse aos jornalistas que Soares foi "o político carismático do século XX", "um homem absolutamente extraordinário, que se bateu contra a ditadura". Ambos tiveram uma relação muito próxima, mesmo nos últimos tempos, com Sócrates a braços com a Operação Marquês e Soares sempre a apoiá-lo e a visitá-lo na prisão. "Foi um grande amigo", disse, emocionado, o exprimeiro-ministro

Sócrates, Ferro Rodrigues, Manuel Alegre, Maria Manuel Leitão Marques, Pedro Silva Pereira, Helena Roseta, mas também Jerónimo de Sousa, Pedro Passos Coelho, Assunção Cristas, Catarina Martins e muitos outros nomes da vida política, no activo ou retirados e dos vários quadrantes políticos. Todos passaram pelos Jerónimos, assim como ex-presidentes da República, como Jorge Sampaio ou Ramalho Eanes. E, sendo certo que Soares nunca foi um homem consensual - nem sequer na morte, baste dar uma volta pelas redes sociais todoslembraram a sua contribuição para a democracia portuguesa.

Um político "irrepetível", como diria Helena Roseta.

António Costa, que optou por não interromper a visita de Estado à Índia, foi um dos grandes ausentes e a sua decisão tem recebido algumas críticas. Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros que regressou à pressa, procurou dar-lhes resposta. A opção do primeiro-ministro, afirmou, "é uma bela homenagem a Mário Soares. Tenho a absoluta certeza que ele compreenderia", afirmou.

Os grandes confrontos políticos em que Mário Soares se envolveu

Da oposição a Salazar, passando pelos combates pós-revolução ou pela assinatura do tratado de adesão à CEE, até chegar ao Palácio de Belém, Mário Soares foi um político que se envolveu em lutas relevantes. Por isso criou amigos e também fez inimizades, joãomaltez jmaitez@negocios.pt

Antes da revolução

Oposição ao regime de Salazar

Encorajado pelo seu pai, João Lopes Soares, um republicano e opositor do Estado Novo, e influenciado por Álvaro Cunhal, seu professor no Colégio Moderno, Mário Soares desperta, ainda jovem, para a vida política. É nos anos de 1940, à época militante do PCP, que se envolve no seu primeiro e longo combate: a oposição ao regime totalitário de António de Oliveira Salazar. Associase à candidatura presidencial oposicionista de Norton de Matos. Nos anos de 1950 afasta-se

do PCP, mas continua a manter- -se politicamente activo. Ao lado de Humberto Delgado, volta a desafiar a ditadura.

E torna-se advogado da família do "General sem Medo", após o assassinato deste, pela PIDE. Nos tribunais plenários, como advogado, assume a defesa de presos políticos.

O próprio é colocado atrás das grades, deportado para São Tomé e Príncipe e, por fim, já com Marcello Caetano no poder, exilado em Paris. O activismo político deu-lhe visibilidade na Internacional Socialista. Aí encontrou apoio para fundar o PS, em 1973, em Bad Múnstereifel, Alemanha.

Pós-25 de Abril

Um "Verão quente" e outras lutas

Passado um ano após a "Revolução dos Cravos", Mário Soares vence as eleições para a Assembleia Constituinte, a 25 de Abril de 1975. Vivia-se o chamado Processo Revolucionário em Curso (PREC) e as posições políticas no país extremavam-se, dando início ao período que viria a ficar conhecido por "Verão Quente" e que muitos temeram poder dar origem a u ma sangrenta guerra civil.

Soares torna-se um dos grandes protagonistas da época. A 19 de Junho de 1975, decorre o célebre

"Comício da Fonte Luminosa, em Lisboa. É aí que o líder do PS exige a demissão do primeiro-ministro Vasco Gonçalves e lança duras críticas ao PCP. Meses mais tarde, num célebre debate televisivo, a 6 de Novembro, em que se opõe a Álvaro Cunhal, acusa-o de querer instalar no país um regime totalitário de esquerda. O histórico líder comunista responderia: "olhe que não... olhe que não...".

Nesse mesmo ano, a 25 de Novembro, assiste-se à abertura de um novo momento político: o da transição entre o processo revolucionário e o da institucionalização da democracia parlamentar.

Era constitucional

Ruptura com Eanes e adesão à CEE

O PREC terminara, bem como um processo de descolonização que suscitou aplausos e ódios. A 27 de Junho de 1976 António Ramalho Eanes venceu as primeiras eleições presidenciais com 61,59% dos votos, com o apoio de Mário Soares e do PS. Soares é nomeado ministro nos I e II Governos Constitucionais, com os quais Eanes mantém uma uma relação política cada vez mais tensa. Em finais de 1980, o líder do PS rompe com Eanes e auto-suspende-se das funções de secretário-geral,

depois de não conseguir convencer o resto da direcção do partido a retirar o apoio à recandidatura do General à Presidência da República, que este venceria.

Dois anos depois respondeu, promovendo uma revisão constitucional para reduzir os poderes presidenciais.

Teve o apoio do PS, PSD e CDS. Em 1983 viria a presidir ao Governo do "bloco central", que terminaria no dia seguinte à assinatura do tratado que concretiza a adesão do país à Comunidade Económica Europeia (CEE), a 12 de Junho de 1985. Dava assim por concluído um dos seus grandes objectivos políticos.

Presidência

Esquerda unida leva-o para Belém

Tornou-se o primeiro Presidente da República civil do período pós-25 de Abril, mas para que chegasse ao cargo foi preciso assistir às até hoje mais disputadas eleições presidenciais. Partiu com 8% das intenções de voto e na primeira volta, a 26 de Janeiro de 1986, obteve 25,4%, enquanto o seu principal adversário Freitas do Amaral, chegava aos aos 46,3%. O candidato de Eanes, Salgado Zenha, seu amigo de sempre e "compagnon de route", com quem cortou rela

ções na altura, ficou-se pelos 20,9% dos votos.

A concentração dos votos de esquerda, nomeadamente do PCP, que para recomendar o apoio a Soares convocaria um Congresso Extraordinário, seria decisiva para que o líder do PS viesse a ser eleito numa segunda volta. A16 de Fevereiro de 1986, venceu com 51,18% dos votos, contra 4832% de Freitas do Amaral. No discurso da vitória, para amenizar as divergências causadas pela bipolarização em que o país mergulhou, viria a afirma-se como Presidente de "todos os portugueses".

Pós-Presidência

Os desafios após a chefia do Estado

Findos os dez anos de dois mandatos em Belém, o facto de já ter ocupado os principais cargos políticos do país não é razão para Mário Soares colocar um ponto final na sua carreira política. Antes pelo contrário. Entre 1999 e 2004 ocupou o cargo de eurodeputado, depois de ter encabeçado a lista do PS às eleições europeias. Em 2003, ao lado de outras figuras de esquerda, como Maria de Lurdes Pintasilgo, Carlos Carvalhas ou Francisco Louçã, dá nota, numa manifestação em Lisboa, da sua

pública discordância quanto à invasão do Iraque.

E em 2006, então com 81 anos, e uma década após a sua passagem por Belém, voltou a aceitar .um novo combate: candidatar-se contra Aníbal Cavaco Silva a chefe do Estado. Cavaco, com quem Soares se incompatibilizou aquando do segundo Governo chefiado pelo então líder do PSD, venceria por maioria absoluta as eleições de 22 de Janeiro de 2006. Soares seria apenas o terceiro mais votado, atrás do seu amigo Manuel Alegre. A sua intervenção no espaço público e político estava contudo ainda longe de terminar.

20/09/2017 21:14:50