Novo director da Polícia Judiciária terá ''missão espinhosa''

Novo director da Polícia Judiciária terá "missão espinhosa"

Ana Henriques e Mariana Oliveira

Luís Neves sucede a Almeida Rodrigues, que esteve dez anos consecutivos no cargo e sai por sua iniciativa

Luís Neves, até aqui dirigente da Unidade Nacional Contra Terrorismo da Polícia Judiciária, vai ser o novo director nacional desta polícia, anunciou ontem o Ministério da Justiça.

O novo dirigente sucede a Almeida Rodrigues, que ocupou o cargo durante dez anos - o director que se manteve mais tempo no cargo - e sai a seu pedido. A decisão foi tomada há meses, segundo explicou o próprio ao PÚBLICO. "Era a altura certa para sair. Tão importante como entrar bem é sair bem", afirmou o actual director nacional, que diz abandonar o cargo com o sentido do dever cumprido. Almeida Rodrigues completa 60 anos em Agosto, deixando nessa altura a efectividade de funções. Pretende regressar a Coimbra, onde vive a família e, no final do ano, reúne condições para se reformar.

Também de saída está o director nacional adjunto, Pedro do Carmo, que vai regressar ao Ministério Público, de onde é oriundo. "A Polícia Judiciária fica em boas mãos", observa. Ainda não se sabe quem escolherá o novo director nacional para seu número dois.

Licenciado em Direito, Luís Neves chegou a fazer o estágio de advocacia, tendo entrado para a Polícia Judiciária em 1995. No final de 2003 já chefiava a secção central de combate ao terrorismo. Tem 52 anos e pela sua unidade passaram casos como o dos homens mais procurados na Argentina que estão a ser julgados em Portugal por assaltos a bancos, os gangues do Multibanco, o "rei Ghob" e o etarra de Óbidos. Do seu currículo publicado em Diário da República faz parte um curso do FBI que frequentou em Quantico, sobre liderança, ética e tomada de decisão.

A sua escolha para o cargo é consensual dentro da Polícia Judiciária, mas espera-o uma "missão espinhosa", admite o presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal, Ricardo Valadas: inverter o desinvestimento a nível financeiro e de recursos humanos que tem atingido esta polícia.

"A sua primeira medida devia ser forçar a abertura de um novo concurso de inspectores", preconiza o dirigente sindical, uma vez que os 120 profissionais que concorreram há quatro anos para a função continuam à espera de entrar, graças aos recursos dos candidatos preteridos, que atrasaram todo o processo.

Outro inspector da Judiciária traça

um cenário ainda mais negro: "Metade do parque automóvel está parado, porque não há dinheiro para o reparar - nalguns casos, nem para mudar o óleo aos carros. 80% do parque informático está obsoleto. Luís Neves terá uma tarefa dificílima: vai herdar uma polícia amordaçada pela falta de meios."

O novo director da Judiciária é, porém, um homem acostumado a enfrentar dificuldades. Casado e com um filho, "raramente goza férias e trabalha pelo menos 14 horas por dia, incluindo sábados e domingos", descreve um colega. Há uma década o seu nome chegou a ser falado para o cargo de director nacional, mas acabou por ser preterido a favor de Almeida Rodrigues.

Oriundo de uma família do Fundão, passou parte da infância em Angola e chegou a jogar futebol profissional. Neste momento, um dos poucos hobbies que tem é a pesca: gosta de ir pescar com os amigos nos raros tempos livres que tem.

Ricardo Valadas descreve-o como uma pessoa frontal, que defende a casa a que pertence. Que não hesitou quando foi preciso desencadear uma investigação a dois inspectores da Judiciária suspeitos de tráfico de droga, recorda outro colega.

Num recente congresso de um sindicato do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, o dirigente da Judiciária deixou clara a sua posição sobre os processos de radicalização dos imigrantes: "A melhor prevenção (...) é a integração dessas pessoas, munidas de documentação e direitos. Saber quem são e acolhê-las de forma rápida, deixá-las ser felizes no nosso país. Sentindo-se integrados esses imigrantes sentem gratidão com o país e isso ajuda a evitar os radicalismos", defendeu.

"Qualquer ser humano que seja estigmatizado pode ter problemas de integração que podem levar a outro tipo de atitudes", acrescentou. Na opinião de Luís Neves, "não há qualquer indício no sentido de que os imigrantes venham com tendências radicais dos países de origem".

21/08/2018 22:12:02