2018 caminha para ser ano de recorde de mortes em Portugal

Até ao passado fim de semana, morreram cerca de 71 mil pessoas no país, mais três mil do que em igual período de 2017 e 2016, os dois anos em que se atingiu os máximos de mortes. Envelhecimento da população é a grande explicação, mas calor dos últimos dias pode agravar a situação.

Este ano caminha a passos largos para registar um recorde de mortes em Portugal. Até este sábado, morreram cerca de 71 mil pessoas no país, mais três mil do que em igual período de 2017 e 2016, os dois anos em que se atingiu os máximos de mortalidade. Uma tendência que, conjugada com o envelhecimento da população, pode ser ainda mais agravada com o pico de calor extremo dos últimos dias, que já terá contribuído muito para a subida do número de óbitos no fim de semana.

O número de mortes em Portugal tem aumentado de forma gradual nos últimos anos, até se situar nos 110 mil. Em 2016 superou mesmo, pela primeira vez, esse patamar, quando há dez anos se situava nos 104 mil. O ano de 2008 foi, aliás, de mudança histórica na demografia nacional: a partir daí, o país passou a ter mais óbitos do que nascimentos, um fenómeno que atingiu um pico no ano passado, com um saldo negativo de cerca de 24 mil pessoas. Este saldo corre o risco de se agravar ainda mais neste ano, uma vez que a natalidade não dá sinais de aumentar: tendo em conta os testes do pezinho realizados, na primeira metade do ano houve um aumento residual de 97 nascimentos (41 786, no total) em relação ao mesmo período do ano passado. Como termo de comparação, até final de junho morreram mais três mil pessoas do que nos mesmos meses de 2017, indicam os dados do sistema de Vigilância Diária da Mortalidade.

"Somos uma população idosa, acabamos por ter uma concentração de mortalidade em idades tardias, é inevitável."


Mas se só agora tivemos uma vaga de calor no país e no ano passado até tivemos uma época gripal mais mortífera, o que justifica uma diferença tão grande e acima do esperado, como definem as autoridades? "Estamos a empurrar a idade da morte até cada vez mais tarde, com muita população próxima dos 100 anos. Somos uma população idosa, acabamos por ter uma concentração de mortalidade em idades tardias, é inevitável", explica a presidente da Sociedade Portuguesa de Demografia. População mais vulnerável a extremos climatéricos como o que vivemos desde a semana passada. "Falta o segundo semestre todo, mas mantendo a evolução dos últimos meses, e com esta onda de calor, podemos vir a agravar os indicadores de mortalidade", considera Maria Filomena Mendes, que admite que neste ano se atinjam máximos históricos nesta área.

Aos dados do primeiro semestre publicados pela Direção-Geral da Saúde (ver infografia) o DN somou os números de óbitos declarados até sábado, publicados na plataforma de vigilância da mortalidade, e o desequilíbrio em relação ao ano passado ainda se agrava mais. Dados que ainda não têm em conta as mortes de ontem, que a meio da tarde já se aproximavam das 300 e ao final da noite das 400, um dos valores mais altos desde o inverno. Em média, já contando com a mortalidade do inverno, que é mais elevada, morrem 300 pessoas por dia em Portugal.

Ao final da noite de domingo havia perto de 400 óbitos declarados.


"Mas não há aqui qualquer retrocesso civilizacional", realça Maria João Valente Rosa, diretora da Pordata, que lembra que não se deve confundir taxa e risco de mortalidade com óbitos. "O risco de mortalidade é hoje menor em todas as idades, mas temos de facto mais óbitos porque temos cada vez mais pessoas em idades em que a mortalidade é maior, população mais vulnerável a estes fenómenos de picos de calor ou frio. Se virmos os dados da Pordata, notamos que há 50 anos tínhamos muito menos óbitos mas o risco de mortalidade era muito maior."

Tal como Maria Filomena Mendes, também Maria João Valente Rosa reconhece que "é muito natural que haja um recorde de número de óbitos" e salienta que nos próximos anos não é de esperar uma grande diminuição. "Mas o que será mesmo preocupante, e não temos dados que permitam perceber isso, é se a esperança de vida diminuir."

O que parece ser dado assente é que o saldo natural vai continuar desequilibrado nos próximos anos, com tendência para se agravar, com o número de nascimentos a ficar entre os 85/87 mil por ano e uma maior concentração de óbitos em idades avançadas. "E a questão é que mesmo que a taxa de fecundidade aumentasse no futuro, podia não compensar esse desequilíbrio, porque as gerações que vão nascendo são cada vez mais pequenas", argumenta Maria Filomena Mendes.

"Mesmo que a taxa de fecundidade aumentasse no futuro, podia não compensar esse desequilíbrio, porque as gerações que vão nascendo são cada vez mais pequenas."


Portugal perderá população até 2080, passando dos atuais 10,3 milhões para 7,7 milhões de residentes, ficando abaixo dos dez milhões já em 2033, de acordo com as estimativas divulgadas em junho pelo Instituto Nacional de Estatística. O número de jovens diminuirá de 1,4 milhões para 900 mil. Já o número de idosos deverá aumentar de 2,2 milhões para 2,8 milhões.

06-08-2018 DN

13/12/2018 10:39:28