“A meio da viagem o bebé começa a chorar. Alguém pede para calar o bebé. Não se calou. Atiraram-no borda fora”

Tiago Cardoso empresta a sua voz a dois refugiados da Mauritânia que conheceu na Roménia e as vozes deles chegam em discurso direto, como se estivessem ainda ali à frente deste jurista português que há anos troca o ócio das férias pelo voluntariado em campos de refugiados.

“Estávamos no meio da rua, em Nouakchott [capital da Mauritânia], e de repente vários tipos metidos numa carrinha de caixa aberta começaram a gritar para nós. Percebemos que nos queriam apanhar, desatamos a fugir, a carrinha vem atrás de nós e estes tipos apanham-nos, prendem-nos com cordas e levam-nos para uma quinta. Vivíamos acorrentados a um poste, fomos ferrados como são ferrados os animais, como prova da nossa pertença ao dono da quinta. Éramos torturados todos os dias, segundo os apetites do capataz, apetecia-lhe bater-nos e batia-nos.”

A Mauritânia é um país muçulmano onde a escravatura não só é uma realidade perfeitamente normalizada como defendida por vários líderes religiosos. “Eu ouvia aquilo e só me lembrava de imagens que vi em programas do National Geographic. Um leão corre esfaimado atrás de duas gazelas e todos nós sabemos como é que aquilo vai terminar”, diz Tiago com os olhos muito abertos.

Os homens fugiram num dia em que o capataz deixou a quinta. A desordem alastrou e eles fugiram nessa maré. “Ouvi a história deles e ao fim de alguns minutos pedi para ir à casa de banho. Fechei-me lá dentro e durante 20 minutos não fiz senão chorar. Não conseguia perceber aquela violência. Só me perguntava: ‘Como é que isto é possível? Como é possível, nos dias de hoje, ferrar pessoas e mantê-las amarradas a postes? Como é que isto ainda acontece?’ Mas a verdade é que ainda acontece”, diz ao Expresso numa tarde domingo em Lisboa. 

“NÃO É POR HAVER PRÉ-FABRICADOS EM VEZ DE TENDAS QUE PASSA A ESTAR TUDO BEM”

Tiago Cardoso ouviu esta história na Roménia, onde esteve durante um mês no início de 2016 naquela que descreve como a “iniciação” ao voluntariado. Jurista na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, dedicou a vida académica - e os tempos livres - a tentar encontrar forma de ajudar os milhares de pessoas que, por todo o mundo, fizeram de outros países o seu - não sem, pelo caminho, encontrarem muitas vezes a hostilidade das populações que os acolhem. Vê casas pré-fabricadas a serem entregues às famílias refugiadas em alguns campos gregos que também visitou e nota-se a oscilação interna quando perguntamos o que é pior: um campo permanente mas com condições ou, dada a falta delas, obrigar os governos europeus a recolher e a integrar estas pessoas.

“Sim, é melhor ter mais condições, mas não podes partir do pressuposto que, enquanto melhoras as condições de vida das pessoas que vivem nos campos, os campos deixam de ser um problema. Não é por haver pré-fabricados em vez de tendas que passa a estar tudo bem”, diz. Qual é a solução? É isso que Tiago está a tentar descobrir na sua tese de doutoramento. “Não sei o que quero ter na Europa, mas sei o que não quero ter.”

Outra das histórias que marcou Tiago foi um de um homem bósnio, refugiado da guerra da Bósnia. Um senhor com uns 70 anos que perdeu a família toda nos Balcãs e não tinha para onde ou para quem voltar. “Conheci-o numa ida às compras. Ele precisava de sapatos. Estavam uns 27 graus negativos em Bucareste e ele só tinha uns ténis de pano que usava todos os dias. Tiago foi a dezenas de lojas com este senhor, que não conseguia engraçar com um par de sapatos. “Este tipo está a gozar comigo? Então eu ofereço-me para vir comprar sapatos com ele e ainda se dá ao luxo de ser esquisito? De ter apetites?”, pensou na altura. Mas pouco tempo depois percebeu: “Não é por se ser refugiado que se deixa de ter preferências, que se deixa de preferir a cor azul à rosa ou o pôr do sol à noite de lua cheia”.

Ainda em 2016, esteve em dois campos de refugiados na Grécia, em território continental - Ritsona, maioritariamente sírio, e Oinofyta, quase exclusivamente afegão. Distribuir alimentos foi o que mais lhe custou fazer. Não conseguia lidar com o facto de haver crianças a pedir água para os seus pais e três ou quatro irmãos e ele só poder dar, a cada uma delas, uma garrafa de 1,5 litros. Num desses dias, a meio da tarde, desabou: “Desato a chorar baba e ranho ao lado de uma voluntária grega. Ela agarrou em mim e levou-me a percorrer o campo e a falar com as pessoas”.

Desse campo trouxe na memória Nuri, um rapaz sírio de 12 anos. “De cada vez que ele me via, fingia que tinha uma arma nos braços e que a disparava contra mim, enquanto gritava ‘I’ll kill you, I’ll kill you’. É normal um miúdo da idade dele fazer isso mas, naquele contexto, o gesto fazia-me confusão”, começa Tiago, que começou então a pedir-lhe para, quando o visse, em vez de o ameaçar lhe dissesse: “I’ll hug you”.

Nunca o fez até ao dia em que se percebeu que Tiago ia embora. “Viu-me a despedir das outras pessoas e começou a chorar, a pedir que eu ficasse com ele porque estava sozinho e não tinha quem tomasse conta dele. ‘Sabias desde o início que eu a dada altura teria de ir embora’, disse-lhe eu. Ele vira-me as costas muito chateado, de repente pára, vira-se para mim, finge que segura uma arma mas quando vai para disparar vem a correr direito a mim, salta para o meu colo e dá-me um grande abraço”, conta Tiago. “Chorei a despedir-me de toda a gente. Pedi desculpa àquelas pessoas por estar prestes a voltar para a minha vida normal enquanto elas continuavam ali, naquela situação miserável, e por não ter podido ajudar mais.” Para surpresa deste voluntário, também elas se desfizeram em desculpas. “Desculpa por te termos recebido neste ambiente, de teres entrado na nossa casa que é uma tenda e por te termos recebido em bancos de madeira.”

A ONU, ou, mais especificamente, o ACNUR, é a organização com mais responsabilidades em todo o mundo no que à ajuda aos refugiados diz respeito, mas Tiago garante que a sua presença não é muito sentida nos campos por onde esteve.

Em Oinofyta, esse vazio foi literalmente ouvido. Havia um altifalante para chamar as pessoas para a mesquita. Nos intervalos das orações, ouvia-se constantemente, através do altifalante, o sinal de uma chamada telefónica. “Fiquei curioso e fui perguntar o que era aquilo e foi aí que me disseram que estavam a ligar para as Nações Unidas. Passavam dias inteiros a ligar para tentar resolver problemas, saber quando é que iria ser atribuído o estatuto de refugiado a alguém, por exemplo”, conta Tiago. “Como era muito raro alguém atender do outro lado, deixavam o telefone em alta voz, junto do altifalante, para poderem ir fazer outras coisas. Se alguém das Nações Unidas atendesse, então a pessoa que estivesse mais próxima do telefone iria a correr para o telefone. Durante todo o tempo em que eu estive lá, não houve uma única chamada a ser atendida.”

Em 2017 esteve duas semanas em Calais, onde o que mais o marcou foi a violência e falta de paciência que as autoridades demonstravam tanto com a presença dos refugiados como dos próprios voluntários. Diz que foi o pior sítio onde esteve. “A destruição da ‘jungle’ fez com que os refugiados, que antes se serviam da organização que os próprios montaram e que as ONG estabeleceram ali, passassem a ser sem-abrigo. Todos os dias fazia 20 minutos de bicicleta da casa onde estava até à ONG onde trabalhava. De manhã, via os refugiados sair debaixo dos arbustos onde tinham dormido tapados com folhas.”

Mas o brio das pessoas, a sua autoestima, mesmo em “condições de merda”, frase que Tiago repetiu, irritado, várias vezes, não abate com facilidade. Era setembro e já fazia frio, mas naquele dia o sol apareceu, começa a contar. Os voluntários montaram chuveiros para que os refugiados, “já com bichinhos debaixo da pele por não tomarem banho há muito tempo”, pudessem lavar-se e fazer a barba, no caso dos homens. “Assim que viram os chuveiros ali, vieram a correr olhar-se ao espelho, tocar na pele, ajeitar o cabelo. Para mim, aquilo foi de uma ternura brutal. Só pensava: ‘Como é que estes tipos ainda têm o cuidado de fazer o bigode, verificar se as patilhas estão iguais e pentear o cabelo? Sentei-me no chão e fiquei a olhar para eles. O que estava a acontecer ali era poesia.” 

Já em 2018 esteve durante três semanas no campo de refugiados de Shatila, casa de mais de 30 mil refugiados, a escassos quilómetros do centro de Beirute, capital do Líbano. Começou como um campo temporário, feito de tendas como todos os outros mas, ao longo dos anos, e já lá vão quase 70, transformou-se num aglomerado caótico de prédios com diferentes alturas, larguras, uns com janelas e portas, outros com panos apenas, ligados entre si por fios elétricos enlaçados. São os espaços entre as casas que desenham as ruas, e as ruas não são bem ruas mas caminhos afunilados onde não há sequer espaço para a luz entrar - a noite está sempre quase a cair em Shatila.

Tiago chegou ao campo através do Children and Youth Centre, um centro de acolhimento de crianças e adolescentes onde eles passam as horas depois da escola com voluntários que os ajudam com os trabalhos de casa, brincam com eles, e de alguma forma tentam oferecer alguma normalidade à vida daqueles jovens que estão fechados num campo e só podem estudar se houver vaga nas escolas libanesas.

Até à guerra da Síria, a maioria da população de Shatila era palestiniana, gente que foi obrigada a sair das suas terras após a criação do Estado de Israel mas agora quase metade é síria. “Foi em Shatila que percebi o quão maldoso consegue ser o Estado libanês. É que até dá água aos refugiados, mas porra!, olha, é salgada. O café é salgado, a chávena em que é servido é salgada, os bolos são salgados”, diz Tiago, que considera os refugiados sírios e palestinianos dos mais desprotegidos em todo o mundo. “Os refugiados que estão em Lisboa estão em processo de integração, querem aprender a língua e começar a trabalhar. Os que estão na Grécia acabaram de chegar e também estão interessados em aprender, têm o ânimo de sair dali. Os que estão em Calais querem ir para o Reino Unido. Shatila é o oposto disto. A maioria das pessoas já nasceu lá e vai morrer lá. Ir a Beirute é como ir ao estrangeiro”, conta.

“A minha experiência em Shatila fez-me pensar em Hannah Arendt e no que ela dizia sobre o direito de ter direitos, ‘the right to have rights’, e sobre só fazer sentido ter direitos se houver alguém que os defenda, que lute por eles. Em Shatila, não há ninguém a lutar pelos direitos daquelas pessoas”, acrescenta. Dali trouxe também um grande receio: “Começo a sentir que já estamos a criar ‘shatilas’ dentro da Europa. Ser refugiado é um estado temporário mas começa a tornar-se permanente”.

Em Lisboa, continua a trabalhar com refugiados e um dos casais que conheceu contou-lhe uma história que ainda lhe tira o ar. Fizeram a travessia da Turquia para Grécia “num daqueles barcos para três onde vão 300”, com o filho recém-nascido ao colo da mãe. A meio da viagem o bebé começa a chorar. E chora mais, apesar do esforço da mãe para lhe dar de mamar, para o embalar. “Até que um gajo ao lado deles diz: ‘cala-me o miúdo’. E ele não se calava. E o gajo não tem mais: tira o bebé do colo da mãe e bebé borda fora”.

Tiago diz que os pais não se atiraram ao homem porque o barco iria virar e toda a gente iria morrer e que não se atiraram à água porque era de noite e não viram onde o bebé caiu. E depois “estas pessoas chegam à Grécia e não podem fazer nada porque estão ilegais. Há algures na Europa um gajo que matou um bebé”. O casal, diz, está para lá de qualquer ajuda possível - “estão totalmente desfeitos”.

Tiago tenta não julgar, dado o nível de miséria e destruição pelo qual todas as pessoas naquele barco de certo passaram. “Tu só baixas os níveis de defesa e sobrevivência no dia em que estás descansado e esse dia é quando tens casa e trabalho e ainda assim nunca estarás totalmente descansado porque não tens a tua família contigo.”

Ana França | Helena Bento, em Beirute

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16/12/2018 13:37:32