Um dia na escola da Judiciária. De que fibra é feita a nova geração de inspetores?

Um dia na escola da Judiciária. De que fibra é feita a nova geração de inspetores?

Reportagem A PJ, pela primeira vez, abriu as portas da sua escola para mostrar como estão a ser treinados os novos 120 inspetores. Coragem, ética, audácia, resistência e espírito de corpo é o que lhes pede o diretor nacional, Luís Neves.

"Estamos preparados para lidar com o pior do mundo", garante a nova geração.
TEXTO DE VALENTINA MARCELINO FOTOGRAFIAS DE ORLANDO ALMEIDA
Um sobrevoo na quinta de casas cor-de-rosa em Loures, onde está instalada a Escola de Policia Judiciária (PJ), permitiria apreciar imagens muito próximas de um thriller policial, com muita ação. E numa aproximação (zoom veríamos que o que se passa ali, de facto, não é ficção. É o treino real de 120 jovens-que vão ser os novos inspetores da Judiciária-a pulsar em cada um dos edifícios.

A adrenalina de empunhar uma pistola, a ansiedade nas buscas, a tensão de salvar uma vida, os nervos à flor da pele num contra-ataque de defesa, a persistência no interrogatório ao suspeito de um assassínio tudoisto se pode sentir e observar num único dia de aulas.

Espreitámos a carreira de tiro, na qual, em grupos de seis, rapazes e raparigas sacam as pistolas do coldre e disparam munições a sério - ao longo do curso são mil disparos para cada um; assistimos às buscas numa casa- -cenário à procura de provas bem escondidas de pornografia infantil; olhámos para a sincronia dos corpos nas aulas de defesa pessoal e para a concentração no treino de suporte básico de vida, debaixo de tiros simulados a impor stress ao momento; e ainda fomos surpreendidos pela intensidade real de um interrogatório simulado.

Há seis turmas, com cerca de 20 alunos cada uma, distribuídas pela quinta do Bom Sucesso, onde ainda crescem laranjeiras como no tempo da família de Luís de Sttau Monteiro, antiga proprietária O dia é cronometrado ao minuto como se de o guião de um filme se tratasse. Não há tempo a perder.

A avaliação é contínua e, parte das vezes, só têm uma oportunidade de mostrar o que sabem - como é o caso neste dia das simulações de interrogatórios.

"Já despachámos a velha!"

Numa divisória que se assemelha a um estúdio de rádio está sentado Pedro Afonso, compenetrado no seu papel de inspetor, exibindo um falso cartão da PJ na lapela. Do outro lado da mesa tem um imprevisível suspeito, duro e difícil - representado pelo traquejado João Pais, funcionário e antigo jardineiro da quinta, que "há mais de 30 anos" desempenha também o papel de figurante nestas simulações.

O interrogatório é transmitido em direto para a sala de aulas, onde estão os outros alunos e o professor. Hesitações, segurança na atitude, escolha de perguntas, persistência tudoé observado e avaliado à lupa. O guião diz que uma idosa foi assassinada e aprincipal suspeita, a nora, já confessou a autoria do crime.

A nora foi representada por Idalina, funcionária administrativa, que leva tão a sério estes momentos que consegue desabar em lágrimas a sério, procurando emocionar e distrair o inspetor- numa representação do que pode mesmo acontecer na vida real.

A polícia está agora a ouvir o filho da vítima (António Pais), atentar saber se foi cúmplice. João Pais leva Pedro Afonso ao limite com as suas intervenções, mas o miúdo não se desmancha. Confronta-o com uma escuta em que amulher diz ao filho de ambos "Já despachámos a velha!". 0 suspeito dá um salto na cadeira. "O quê? O quê? O que me está a dizer?

Essa grande vaca fez isso à minha mãe? Ou vão já buscá-la a casa ou vou lá eu e mato-a com as minhas mãos!Vou chamar a Uber!" exalta-seo homem, dando murros na mesa.

Quem está a assistir rebenta a rir com a profissional interpretação de António Pais. Pedro Afonso aguenta-se estoicamente, mas se fosse a sério, observou Isabel Polónio, a diretora da escola, não poderia ter deixado um suspeito avançar tanto na mesa, quase ao ponto de entrar em contacto físico com o inspetor.

Mudamos agora de cena. Num outro edifício estão instaladas duas casas a fingir que servem de cenário aos treinos de buscas.

Têm cozinha, quarto, sala e casa de banho decorados, espartanamente, com móveis velhos. A brigada da PJ, com cinco alunos, entra de rompante e acorda o suspeito na cama - neste caso o Sr. Pereira, motorista da escola. Estremunhado, reclama. "Mas o que é isto? Quem são os senhores?", questiona.

Apresentam-lhe o mandado de busca em que está escrito que é suspeito de pornografia infantil através da internet.

A brigada tem nomes de código como pantera, lobo, leoa e a sua ação é acompanhada de perto pelos formadores, que observam os avanços e as iniciativas de um ponto superior, género mezzanine. É preciso revirar gavetas, armários, estantes e encontrar as provas escondidas.

Para complicar, surge a mulher do suspeito-na realidade Carla, administrativa dabiblioteca da escola -, que começa a fazer perguntas e mostra-se indignada com as suspeitas que recaem sobre o marido. O grupo de alunos consegue encontrar quase todas as pistas, uma delas num CD com os nomes de duas menores.

"A ansiedade estava elevadíssima no início, mas depois foi acalmando", confessa Alexandre, que fazia o papel de chefe de brigada. E os trabalhos para casa são marcados: agora têm 24 horas para fazer o relatório (auto) da busca e a reportagem fotográfica, alinhando todas as imagens que foram colhendo.

Valentões ou meninos de coro?

Um inspetor da PJ - corpo superior de polícia que investiga a criminalidade complexa, mais grave e violenta - tem uma "fibra especial", admite o diretor nacional Luís Neves, que fez grande parte da sua carreira no combate ao crime violento. Sintetiza em quatro pontos o que pretende desta nova geração de inspetores: "Quem entra na PJ tem de assumir um compromisso com o coletivo, vestir a camisola. Todostêm de lutar por todos; têm de ter capacidade permanente para aprender; têm de ser corajosos, não apenas do ponto de vista físico, mas coragem para investigar seja quem for, sobretudo serem audazes nas investigações e não terem medo de falhar; por último, ter valores de integridade, ética e respeito pela lei."

Na cerimónia de abertura do curso, em setembro, tinha valorizado a "capacidade de resistência e saber esperar" como "grandes virtudes" na profissão. "Vão passar aqui momentos muitos difíceis, verdadeiras provas para a natureza humana. Ao longo da vossa carreira, alguns vão ter problemas com a família, não vão conseguir dar o apoio que queriam aos mais idosos nem dedicar tanto tempo como gostavam aos vossos relacionamentos pessoais. Mas aqui nenhum companheiro fica para trás. Apoiamo-nos uns aos outros. É essa a atitude. Não há vedetas. Vai ser exigido muito de todos. Acima de tudo, têm de gostar de pessoas, é com elas e para elas que trabalhamos. Têm de respeitar todas, sejam vítimas sejam suspeitos", declarou, a modo de caderno e encargos, perante uma sala silenciosamente concentrada.

As palavras foram saboreadas pelas turmas, como recorda Vicente (todos os nomes dos alunos neste texto são fictícios, apedido da direção da PD, 30 anos, licenciado em Criminologia. "Estamos preparados para o pior do mundo", garante, consciente do "trabalho duro" que o espera e dos criminosos que terá de combater. "Não vamos para um mundo cor-de-rosa. Sabemos que vamos lidar como pior que existe, com o lado mais negro", sublinha. Vicente viu as suas expectativas em relação ao curso "muito superadas", principalmente devido "à grande quantidade e qualidade das aulas práticas".

Mas estará esta geração, que quer resultados tão rápidos como o da velocidade de um dique, preparada para os sacrifícios de que fala Luís Neves? Haverá os duros e os valentões, como no passado, de que falam nostalgicamente alguns antigos operacionais?

"Indiscutivelmente que este grupo é gente muito boa, em geral muito bem preparada intelectualmente. O que virão aser-se mais duros para as ruas, se mais de gabinete- é difícil prever neste momento. No curso ainda falta avaliar uma fase determinante que são os exercícios de gestão do local do crime. Depois, quando começarem a trabalhar, uma valência muito importante é o seu à-vontade na rua, como interagem com as pessoas que nunca viram antes", nota Carlos Ademar, docente da escola há 12 anos e investigador há 31. Acredita que os futuros inspetores vão preencher todas as valências na PJ: "Há quem prefira o crime mais sofisticado, de gabinete, há quem sonhe com o combate ao tráfico de droga, homicídios e roubos."

José Braz, um dos chamados históricos da PJ, liderou o combate ao tráfico de droga durante vários anos. Foi estrear a Escola de Barro, no 1.° curso no ano de 1979. Recorda que "nosanos 1980 havia oparadigma dos valentões, prontos para a violência de casos como as FP 25, para os roubosà mão armada Os crimes económico-financeiros não estavam tanto na agenda e os informáticos nem existiam".

A maioria dos novos inspetores, salienta, "chegavam à PJ com a tropa feita, a saber usar armas". Em contrapartida, sublinha Braz, "hoje há o paradigma da criminalidade complexa, dos crimes económicos e informáticos, e a escola está modelada para responder a estes novos desafios que são os crimes de colarinho branco, de caneta. Não é tanto a criminalidade de metralhadora".

Justiceiros excluídos

Ao contrário do que aconteceu até aqui, neste curso os licenciados em Direito deixaram de ser a maioria dos perfis. Mais de metade são engenheiros informáticos, engenheiros ;do ambiente, psicólogos, gestores, economistas e até licenciados em Ciência Política e Relações Internacionais, como é o caso de Natália, 30 anos, de origem russa, que veio com a família da Sibéria para Portugal há 15 anos.

Fala fluentemente português e, claro, russo e inglês. Trabalhou no Alto Comissariado para as Migrações e essa experiência trouxe- -Ihe uma sensibilidade especial para o tráfico de seres humanos. "Quero contribuir para uma sociedade mais justa", afirma. Em Portugal preocupa-a particularmente a criminalidade económica. "É um crime muito disfarçado. Há muito para investigar e por fazer", assinala.

Matilde, também de 30 anos, é doutorada em Psicologia, com uma tese na área de agressores sexuais. "Desde os 14,15 anos que queria vir para a PJ. Estou a adorar", afirma, a sorrir. De início achava que a investigação dos crimes sexuais podiam ser a sua área de eleição na PJ, dada a sua experiência académica, mas depois de quatro meses na quinta do Bom Sucesso um novo mundo se abriu.

"Acabamos por gostar do trabalho em qualquer área. Estou disponível para trabalhar onde for necessário. Sou uma folha em branco com muita vontade de aprender", afiança. Cristina Soeiro é a psicóloga responsável pela seleção dos candidatos, sublinha o que é valorizado nas suas personalidades: autocontrolo emocional, criatividade de resposta, saber trabalhar em equipa, aceitar críticas, ser assertivo, gerir o stress. Não entra quem se revele "ansioso, hostil ou com tendências depressivas". Justiceiros? "Aparecem alguns, mas nunca são selecionados", revela.

"Estes futuros inspetores vão ter de saber lidar tanto com a rotina como improvisar.

Tanto podem estar no gabinete a pesquisar informações no computador como ter de ir para a rua lidar com violência extrema", afirma Soeiro. "Estão sedentos de ir para o terreno e a polícia também está sedenta deles", declara.

João Gomes, supervisor do curso e coordenador de investigação criminal, não duvida de que estes futuros inspetores "têm toda a garra e sabedoria" que é preciso para a Polícia Judiciária. "As licenciaturas foram uma mais-valia na sua qualidade. Falam melhor, escrevem melhor. É preciso notar que a criminalidade violenta é uma franja de todo o trabalho da Judiciária", afiança. João Gomes veio da Unidade de Combate à Corrupção e tem apreciado a forma como os jovens alunos olham para esta área da PJ. "Sabem que não há intocáveis. Em oito anos que estive na UNCC fiz buscas desde o Palácio de Belém ao Ministério da Justiça, passando pela Procuradoria-Geral da República. Ultrapassaram-se barreiras impensáveis há uns anos", sorri.

16/02/2019 13:28:31