Amnistia pede a França que acabe com "assédio e agressões" a defensores de migrantes

Amnistia pede a França que acabe com "assédio e agressões" a defensores de migrantes


Paris, 05 jun 2019 (Lusa) -- A Amnistia Internacional pediu hoje a França que acabe "com o assédio e com as agressões" contra os defensores dos direitos humanos que ajudam migrantes e refugiados em Calais e em Grande-Synthe, na região norte daquele país.



O apelo consta num relatório publicado hoje sobre uma recente investigação conduzida pela Amnistia que revela, segundo a organização não-governamental (ONG), como a polícia e o sistema judicial franceses visam voluntários e organizações que apoiam migrantes, refugiados e requerentes de asilo nestas duas zonas, para onde convergem muitas pessoas na esperança de conseguir ir para o Reino Unido.

"França deve acabar com o assédio e com as agressões" contra os defensores dos direitos humanos e deve "abrir um diálogo construtivo", afirma a Amnistia Internacional, pedindo ao mesmo tempo às autoridades francesas que "tomem imediatamente medidas para garantir um ambiente seguro e de apoio" para estas pessoas em Grande-Synthe e Calais.

Desde o desmantelamento em 2016 do acampamento de migrantes em Calais, conhecido internacionalmente com a "Selva", os defensores dos direitos humanos dizem estar "sob uma crescente pressão".

As ações dos defensores dos direitos humanos são "sistematicamente dificultadas" e os próprios são "submetidos a atos de intimidação e de assédio, a maus tratos e, em alguns casos, a processos judiciais infundados", denuncia o relatório.

Um tratamento, frisa a ONG, que está "intrinsecamente ligado à maneira como os próprios migrantes são tratados".

"Fornecer comida às pessoas com fome e calor às pessoas sem abrigo tornaram-se atividades cada vez mais arriscadas no norte de França, já que as autoridades visam regularmente as pessoas que prestam ajuda aos migrantes e refugiados", aponta a investigadora da Amnistia, Lisa Maracani, citada num comunicado.

Perante tal cenário, e após uma investigação no terreno durante dois anos, a Amnistia Internacional pede às autoridades francesas que "reconheçam publicamente o importante papel que desempenham" os ativistas pró-migrantes em Calais e em Grande-Synthe, e que "assegurem que as forças de segurança ativas na região atuem em conformidade com regras de intervenção mais restritas".

O Estado francês considera estes ativistas como "elementos perturbadores", segundo a organização internacional, que lembra que "a cidade de Calais emitiu duas ordens a proibir a distribuição de alimentos em março de 2017 e impediu a instalação de chuveiros temporários num terreno propriedade de uma instituição de solidariedade local".

A ONG denuncia ainda a realização de ações de verificação de documentos de identidade de ativistas e voluntários e a aplicação de multas de estacionamento visando veículos que distribuem alimentos.

A Amnistia Internacional falou com 38 defensores dos direitos humanos entre agosto de 2018 e janeiro de 2019, incluindo voluntários e membros de mais de uma dezena de associações com sede em Calais e em Grande-Synthe.

Dois anos e meio após o desmantelamento de a "Selva", mais de 1.200 migrantes e refugiados, incluindo menores não acompanhados, vivem em tendas e em acampamentos precários em redor de Calais e Grande-Synthe, segundo a organização, que acrescenta que estas pessoas vivem sem acesso regular a comida, água, saneamento, abrigo ou assistência legal.

25/08/2019 08:48:57