"Vivi uma vida preenchida. Viajei por toda e qualquer estrada"

"Vivi uma vida preenchida. Viajei por toda e qualquer estrada"

Freitas do Amaral, o homem que fez tudo à sua maneira

Fundador do CDS e um dos "pais da democracia portuguesa" morreu ontem aos 78 anos Presidente da República sublinha "gratidão nacional" ao político, ao professor e ao jurista

Helena Teixeira da Silva

1941-2019 Era apaixonado por Portugal, era livre - e era coerente. Se só fosse possível elencar três características definidoras de Diogo Freitas do Amaral - político, professor universitário, historiador e pedra basilar da democracia portuguesa -, talvez estas três fossem aquelas que mais se aproximam do que foi a sua personalidade refletida na sua vida pública. Talvez as três pequem por parecer lugares-comuns, mas numa personalidade que viveu 78 anos - morreu ontem; estava internado no hospital da CUF, em Cascais, desde 16 de setembro -, a prova do algodão decorre do olhar que sobre ela pode lançar-se desde que nasceu, a 21 de julho de 1941, na Póvoa de Varzim, no norte costeiro de Portugal. Freitas do Amaral, filho de um secretário de Salazar, resumia-se, com propriedade, como homem com "um percurso singular".

A frase, que parece epitáfio e que não contraria as três premissas anteriores, dá título ao livro que completa a trilogia das suas memórias (1982-2017), e que foi lançado em junho, em Lisboa, altura em que citou Frank Sinatra: "Fiz tudo à minha maneira". Já doente, como era público, num discurso em que não escondeu o que a muitos terá soado a despedida, "o jurista eminente, o professor de referência, o intemaciona- Iista convicto, o patriota certo", como ontem o definiu o antigo presidente da República Jorge Sampaio, deixou claro que, nos ziguezagues da vida, nunca se arrependeu de nada. E que nada o marcou mais do que a sua filiação democrata-cristã, "inspirada na vida e nos ensinamentos de Jesus Cristo." "Enquanto tiverum sopro de vida", reiterou, "tenciono continuar a dar prioridade a esse aspeto". Marcelo Rebelo de Sousa, "o primeiro presidente da República a ser eleito pela televisão", como afirmou Freitas numa entrevista ao DN, em 2017, presente na cerimónia do lançamento da obra, nem era para discursar mas acabou por proferir a frase que, em certo sentido, serve para assinalar as tréguas entre o político e o país que tantas vezes o esqueceu: "Aquilo que fez por Portugal não prescreve". Já ontem, numa nota publicada no site da Presidência, o chefe de Estado voltou a insistir na importância de Freitas do Amaral na construção do que é hoje a nação. "É um dos quatro pais fundadores (a par com Mário Soares, Francisco Sá Carneiro e Álvaro Cunhal) do sistema político-partidário democrático em Portugal, como presidente do Centro Democrático e Social". Ã saudade, Marcelo, amigo de longa data, juntou "sobretudo a gratidão nacional".

UM "HOMEM SOLITÁRIO"

O comboio de cargos políticos desempenhados por Freitas do Amaral diz, apesar de tudo, menos do seu percurso do que a inteligência e a liberdade com que sempre assumiu as suas posições e as suas lutas. Pai de quatro filhos, faz parte daquela geração de políticos que nasceu nas universidades de Direito. No seu caso, licenciou-se na Universidade de Lisboa, onde mais tarde haveria de especializar-se em Ciências Político-Económicas e de obter o grau de doutor em Direito Público. Foi fundador e primeiro líder do CDS, mesmo se, haveria de confessar, nunca sonhara, "antes do 25 de Abril de 1974, vir a ser fundador e líder de um partido político". Foi eleito deputado à Assembleia Constituinte e, por várias vezes, à Assembleia da República. Foi ministro dos Negócios Estrangeiros em dois governos: à Direita, na Aliança Democrática, entre 1979 e 1983 (onde foi também vice primeiro-ministro e primeiro-ministro interino); e à Esquerda, no PS de José Sócrates (2005 e 2006).

Foi candidato à Presidência da República em 1986, a única vez em Portugal que houve duas voltas, numa campanha histórica. Ganharia Mário Soares, e apesar de ter-se especulado durante décadas sobre a inimiza--de que existiria entre os dois - Soares chamou-lhe "elefante" quando eram adversários -, a verdade é que eram quase íntimos. Muito mais tarde, haveria de recusar ser candidato a Belém pelo PS e, mais tarde ainda, candidato contra Cavaco. Nas suas contas, a sua vida política contempla "quatro recusas" durante o Estado Novo e "mais de uma dezena de sins" depois do 25 de Abril.

No plano internacional, foi presidente da União Europeia das Democracias Cristãs (1981-1983) e foi o primeiro português a presidir à Assembleia Geral da ONU (1995-1996). Mas as suas posições são, pelo menos, tão marcantes quanto os cargos. Como também disse Marcelo, "acabaria por ser sempre um homem solitário, por causa da sua visceral independência, da sua aversão a prisões de pensamento, da sua desçoberta feita ao longo de décadas de que havia mais mundos do que aquele ou aqueles que haviam marcado a sua juventude e o seu protagonismo primeiro na jovem democracia portuguesa." Freitas do Amaral nunca se conteve: criticou severamente a investigação conduzida pelo Ministério Público no caso Camarate, nunca digerindo a história de que a queda da aeronave que vitimou Sá Carneiro e Amaro da Costa (que considera "o melhor Governo constitucional de Portugal") foi um "acidente fortuito", como a partir de 2011 haveria de ser um dos maiores críticos ao Governo PSD-CDS de Passos e Portas, que acusava de "autismo político" e de "negação da realidade".

O SONHO IMPOSSÍVEL DO CDS Mais do que de Direita ou de Esquerda, Freitas era da democracia cristã. E isso nunca mudou. Apesar de haver quem olhe para o CDS como o partido mais aproximado da extrema-direita, pelo menos na sua génese, e por causa da extinção de vários partidos ainda mais à direita no pós-25 de Abril, Freitas cedo colocou os pontos nos is do bilhete de identidade do partido: "Nunca fomos ideologicamente conservadores ou liberais. Fomos democratas-cristãos, centristas e reformadores - ou melhoristas. Pelo menos de 1974 a 1991".

Abandonaria o CDS em 1992, sucedido por Manuel Monteiro, e faria uma aproximação consciente à Esquerda, o que levaria o CDS a banir o seu retrato da galeria dos fundadores da sede do partido e a enviá-lo para o Largo do Rato, morada do PS. Apesar do infeliz episódio, em 2015, quando foram assinalados, em livro, os 40 anos do partido centrista, Freitas deixou um testemunho fraterno: "Ninguém traiu ninguém.

Continuamos irmãos, embora separados". De resto, Freitas nunca encarou a sua evolução política como derrapagem à Esquerda, mas como aquilo que Marcelo definia como "visceralmente do Centro". Ele, contudo, explicou-o de outra forma: "Houve uma fase em que, com o país demasiado virado à Esquerda, acentuei valores de Direita. E uma segunda fase em que, julgando que o país estava demasiado virado à Direita, acentuei sobretudo valores de esquerda". E acrescentou: "Fui coerente, embora não tenha sido compreendido".

Na véspera de umas eleições legislativas em que o CDS-PP arrisca ter o pior resultado da sua história, vale a pena lembrar aquele que é talvez o único sonho que Freitas deixou por cumprir: "Ver o CDS ser o partido mais votado do país, capaz de governar sozinho e atingir a maioria absoluta".

Diogo Pinto de Freitas do Amaral, para quem a política não era "uma oportunidade de viver na alta roda", mas "uma oportunidade de prestar um serviço a Portugal", dedicou-se, depois da política, a "uma série de pequenas vitórias": ao ensino, aos livros, às biografias e à dramaturgia.

O corpo do fundador do CDS vai hoje para o Mosteiro dos Jerónimos e as cerimónias estão marcadas para amanhã (há missa às 12 horas) e contam com Marcelo Rebelo de Sousa, que cancelou a ida a Roma, à elevação de Tolentino Mendonça a cardeal, para poder estar presente.

Evolução do pensamento aproximou Freitas do PS

Considerava que o CDS equilibrou a democracia do pós-25 de Abril, acolhendo eleitores de Direita. Afastou-se do partido e do PSD por não partilharem dos seus ideais

Ana Gaspar

Ideologia Freitas do Amaral assumiu, em entrevista recente, que o seu pensamento tinha passado do Centro-Direita para o Centro-Esquerda, mas frisou que não se tratou de uma traição aos seus ideais democratas-cristãos, de defesa da justiça social, mas, sim, de uma mudança de posicionamento face aos partidos de Direita. "O que me causa surpresa é o facto de amaioria dos católicos se esquecerem disso!", revelava ao DN, em junho passado, a propósito do lançamento do terceiro volume das suas memórias.

Discípulo de Marcelo Caetano, na Faculdade de Direito de Lisboa, defendeu ao "Sol" que o CDS nasceu como um partido de Centro-Direita para equilibrar o regime após o 25 de Abril. No seu entender, a jovem democracia contava apenas com partidos de Esquerda, e, sem o CDS, a Direita poderia passar a apoiar soluções não democráticas.

No livro, questiona-se se teria feito uma viragem à Esquerda por causa do tempo em que foi presidente da Assembleia-Geral da ONU (1995-1996). A passagem por Nova Iorque tinha-o aproximado de pessoas do Partido Democrático norte- -americano, com posições mais parecidas com as suas do que as dos republicanos. Mas, já em 2016, à Renascença, o fundador do CDS lembrava que, no verão de 1974, assumiu que o partido seria do Centro "aberto por igual a alianças com o Centro-Direita e com o Centro-Esquerda". O que viria mais tarde a acontecer, em 1978, quando o CDS se coligou com o PS para a formação do II Governo Constitucional, no qual não ocupou nenhum cargo. Foi nesta curta legislatura (sete meses) que foi criado o Serviço Nacional de Saúde (SNS). "Mesmo que não mude de sítio, eu fico mais próximo do PS", afirmou na mesma entrevista, demarcando-se do que classificou como a viragem à Direita do CDS e do PSD, que os afastaram do pensamento original e de si. Foi líder do CDS em dois momentos, aquando da sua fundação e em 1987. Acabaria por dizer que se arrependeu de voltar ao cargo, por não ter conquistado mais eleitores. Em 1992, abandonou o partido em colisão com Manuel Monteiro, que se opunha ao Tratado de Maastricht.

Em 2005, ao assumir a pasta dos Negócios Estrangeiros, no 1.° governo de Sócrates, acentuava a rutura com a Direita. "O PSD nunca me desculpou duas coisas: a primeira foi ter criado o CDS [...] Em segundo lugar, também nunca perdoaram a minha ida para o Governo do eng. Sócrates".

Apesar de ter apoiado o PS de António Costa em 2015, não lhe agradou a "geringonça" - palavra de que não gostava, embora considerasse legítima a viabilização do Governo. Tal facto não o impediu de mostrar simpatia por Assunção Cristas. Já depois dos fracos resultados da Direita nas europeias, Freitas deixou um recado ao PSD e CDS: encontrar novas causas mais próximas das pessoas.

Em 1986, Freitas e Soares partiram Portugal ao meio

Histórias da eleição presidencial mais participada da nossa história, em que o fundador do CDS perdeu pela diferença de apenas 138 mil votos. O país bipolarizou-se como nunca antes tinha acontecido

José Miguel Gaspar

MEMÓRIA Foi em 1986, ano em que Portugal entrou para a CEE, em que o vaivém Challenger explodiu, em que Olof Palme foi assassinado, em que se deu o desastre nuclear de Chemobyl e em que Portugal foi humilhado no Mundial de Futebol no México (último lugar do grupo, derrotas com Polónia e Marrocos, uma só vitória, 1-0, frente à Inglaterra de Bobby Robson), que Freitas do Amaral travou e perdeu a sua mais épica batalha política de sempre. Foi o ano em que Portugal se partiu ao meio, bipolarizado como nunca entre a Direita do "Prá Frente Portugal", que apoiava Freitas, e a Esquerda toda que se uniu para franquear Mário "Soares é Fixe". Essas eleições presidenciais, as únicas com uma 2." volta em democracia, são ainda as mais participadas da História: apenas 22% de abstenção; nas presidenciais de 2016 que coroaram Marcelo Rebelo de Sousa 51% não votaram. Na fabulosa corrida de némesis de 1986, o fundador do CDS viu o fundador do PS começar como 'underdog' (sondagens davam-lhe 8% no arranque) e acabar imperador eleito (51,18% contra 48,82% de Freitas; só 138 mil votos separaram os dois).

A história dessas eleições, em que corriam ainda na 1ªa volta Salgado Zenha (apoiado pelo PRD, partido recém-flmdado pelo então presidente Ramalho Eanes), Maria de Lourdes Pintassilgo (independente) eÂngeloVeloso (PCP), diz-nos que Freitas do Amaral perdeu a guerra em três batalhas, duas delas em campo alheio.

A primeira foi na "noite da paulada" a Soares: 15 de janeiro, operários vidreiros na Marinha Grande saltam sobre o socialista em campanha, que leva um murro na cara, outro na cabeça e depois uma paulada pelas costas ("a paulada é o que me dói mais", diria depois); a insidiosa agressão teve um efeito perverso: uma viragem emocional do país, que beneficiou Soares.

A segunda foi no XI Congresso Extraordinário do PCP: 2 de fevereiro, Álvaro Cunhal profere a célebre frase "vamos ter que engolir um sapo" e decide com o Comité Central o novo slogan de contenção de danos "contra Freitas votar Soares"; Cunhal dirá outra frase famosa, a afagar o desgosto óbvio dos comunistas, "na hora de votar, tapem a cara desse candidato com uma mão e votem com a outra".

A terceira batalha foi perdida por Freitas do Amaral no seu terreiro: durante o debate televisivo da 2} volta com Soares, em que esteve muito nervoso e sempre à defesa, tudo lhe corre mal e deixou o socialista livre para se vangloriar da História (Portugal tinha entrado na Comunidade Económica Europeia e isso devia-se ao fundador do PS) e correr a atacar. Terá sido um ínfimo pormenor que o fez cair: no fim do debate, Soares levanta- -se e diz a Freitas "então 'bonne chance' [boa sorte, em francês] senhor doutor" e estende-lhe a mão. Freitas fecha a cara, não responde, não retribui o cumprimento de Soares. Numa altura em que não havia ainda Internet ou redes sociais (só no século XXI), era avassalador o peso social daquilo que emitia o ecrã coletivo da RTP.

A noite em que o remorso espreitou a vida pela porta da alma, 16 de fevereiro de 1986, começou com um engano para a Direita: a projeção da RTP em cima das urnas, 20 horas, dava a vitória a Freitas (49,5% a 51,5% de votos; Soares surgia entre 49% e 50,5%). Às 22 horas, os tabuleiros mudaram; à meia-noite, Soares era oficialmente declarado 17.º presidente da República Portuguesa

21/10/2019 00:56:29