Efacec apela a trabalhadores que não se “distraiam” em “momento positivo”

Dois meses depois da nacionalização, decidida pelo Governo na sequência de impasse gerado com a saída do maior accionista, Isabel dos Santos, a Efacec retomou esta semana a sua actividade normal, “com o regresso presencial de todas as equipas às instalações da empresa em Portugal”.

Um momento assinalado em comunicado interno, onde o presidente da comissão executiva, Ângelo Ramalho, apela à mobilização dos trabalhadores para que seja retomado “o caminho do crescimento sustentado”, mas também deixa transparecer receios de alguma instabilidade interna.

“Ultrapassadas as grandes dificuldades administrativas e financeiras, estão agora reunidas as condições para retomarmos as nossas operações e, consequentemente, o caminho de crescimento sustentado”, destaca o responsável, referindo que, em Agosto, o sistema financeiro “concedeu o capital necessário à retoma das suas operações”, a começar pela cadeia de abastecimento, “cujo processo de regularização está em curso e que evoluirá fortemente durante o mês de Setembro”.

O Governo nacionalizou 71,7% do capital detido pela empresária angolana Isabel dos Santos na Efacec, a 2 de Julho, numa altura em os processo judiciais que envolviam a empresária angolana, constituída arguida no âmbito de processos judiciais em Angola, e do Luanda Leaks, estavam a impedir a venda dessa participação, apesar de a empresa ter recebido perto de uma dezena de propostas de compra, incluindo de grandes empresas internacionais.

Depois de praticamente nove meses em gestão corrente, na sequência do arresto de bens da empresária angolana em Portugal, a mensagem aos mais de dois mil trabalhadores da empresa divide-se entre a confiança e o alerta. Isto numa altura em que está em curso o processo de reprivatização da empresa, atraindo manifestações de interesse de vários grupos nacionais e internacionais, e que o SITE-Norte, sindicato dos sectores metalúrgico, metalomecânico, eléctrico e outros, volta à defesa da manutenção definitiva do grupo na esfera pública, tendo pedido a realização de plenários de trabalhadores, entretanto recusados.

“Setembro dá-nos assim um tempo fundamental para reintegrar equipas, reorganizar e planear e, muito importante, para a entrega de resultados nos timings e nas condições de execução que nos comprometemos”, destaca o presidente executivo da empresa que está presente em mais de 60 países e é reconhecida pelo seu talento e know-how tecnológico em diferentes negócios.

Mas em jeito de alerta acrescenta: “Não nos devemos distrair, este é um momento positivo, mas de redobrada responsabilidade perante todos os que em nós confiam e que representamos”. Depois do prejuízo reputacional associado a Isabel dos Santos, o apelo do CEO à união dos trabalhadores é directo: “Este é o momento de actuar colaborativamente e em uníssono em prol do futuro da Efacec, transformando o talento de cada um de vós num veículo gerador de resultados positivos, produtos e soluções tecnológicas com rentabilidade e reputação positiva para a marca”.

Empresa sugere plenário virtuais

Esta semana, os trabalhadores também receberam outra comunicação interna, agora recordando algumas medidas do Plano de Contingência da Efacec, que estão na base da recusa de um pedido para a realização de plenários nas suas instituições, pedidos pelo SITE-Norte. Refere a nota que, “após ponderada consideração” a empresa tomou a decisão de, “por agora, não aceder “ao pedido. “Entendemos que nesta altura a realização de plenários nas nossas instalações, que obrigam a um agrupamento de mais de cinco trabalhadores, poderia colocar em causa a saúde de todos os colegas e também a saúde pública (…)”.

A empresa diz compreender “a importância da actividade sindical e da representatividade dos trabalhadores”, o que a leva “a tomar a liberdade de sugerir a realização de plenários virtuais (…)”.

A recusa já foi comunicada à estrutura sindical, filiada na CGTP-IN, que esta quinta-feira disse ao PÚBLICO que vai analisar a decisão da Efacec.

O plenário destinava-se a ouvir os trabalhadores sobre a situação da empresa, disse ao PÚBLICO fonte sindical, reafirmando que “o entendimento do SITE-Norte é de que a empresa deve manter-se pública”.

Mas o sindicato também tem manifestado preocupação com a possibilidade de despedimentos e tem exigido a reintegração de pessoal qualificado, que foi sendo despedido ou decidiu sair nos últimos quatro anos, de forma a dotar a empresas de quadros intermédios e superiores de elevada competência técnica, que conhecem o negócio, e podem ajudar a relançar a empresa. 

Reprivatização em curso

Entretanto, o processo de reprivatização está em curso. O diploma de nacionalização também deu o tiro de partida para a reprivatização, que o Governo pretendia célere. Declarações recentes do Ministro da Economia, Siza Vieira, dão conta de um aumento das manifestações de interesse por parte de investidores, alguns dos quais já depois da nacionalização da empresa.

O Governo, através da Parpública, já entregou a avaliação da empresa a duas consultores, a EY e Moneris, e escolheu o Haitong  para assessorar financeiramente a operação.

O PÚBLICO questionou a Parpública sobre o prazo dado às consultoras para entrega dos relatórios, mas a resposta obtida foi apenas de que “as avaliações estão em curso”.

Isabel dos Santos entrou na Efacec em finais de 2015, por compra de uma posição de controlo (71,7%) aos Grupo José de Mello e a Têxtil Manuel Gonçalves, que se mantiveram no capital com uma participação minoritária.

Com Rosa Soares 


 

25/09/2020 02:30:01