Que podem estas presidenciais fazer por nós?

A candidatura de Ana Gomes dá-me a esperança de que estas eleições presidenciais possam ser sobre qualquer coisa. Estas presidenciais por quem ninguém dava nada até há pouco podem vir a ser cruciais para nós.

Desde que escrevo estas crónicas que fiz sempre questão de tornar público que escolhas políticas faço como cidadão. Essa não é a única opção possível, nem a única respeitável; há cronistas que se esforçam para que não se perceba em quem votam, e pode haver excelentes razões para isso. No meu caso, achei sempre preferível que os leitores pudessem saber de que lado estou, e depois darem o devido desconto.

Pois bem, não é então por ser amigo e admirador de Ana Gomes, como fiquei depois de trabalharmos juntos em tantas causas comuns, a partir de bancadas parlamentares diferentes, que acho a sua candidatura a melhor notícia que tivemos até agora sobre as próximas eleições presidenciais. É por reconhecer que, mesmo em circunstâncias pessoais difíceis, ela não se esquivou a dar um contributo ao país num momento que se arriscava a ser penoso. Não só porque, ao apresentar a sua candidatura, Ana Gomes torna estas eleições mais disputadas, mas sobretudo porque me dá a esperança de que estas eleições presidenciais possam ser sobre qualquer coisa. Que tenham conteúdo, que falem das verdadeiras questões estratégicas que interessam a Portugal numa época de pandemia global, recessão profunda e crise ecológica. Que nos ponham a falar do modelo de desenvolvimento que queremos para o país, aquele que seja inclusivo e que seja dinâmico, que dê futuro a todos. Que estas eleições sejam, no fundo, mais sobre nós e menos sobre as táticas político-partidárias de cada um dos candidatos.

A partir desta semana, com a apresentação das candidaturas de Marisa Matias e de Ana Gomes, isso passa a ser mais possível. Marcelo Rebelo de Sousa, pelo seu lado, representa o que de melhor o seu campo político tem para oferecer ao país, com um percurso cívico ímpar e um mandato presidencial inegavelmente construtivo, e globalmente positivo. Assim há condições para puxar para cima o debate presidencial e a campanha de todos os candidatos (à exceção, é claro, daquele que só quererá atirar o debate para a lama, e que deve ser ignorado enquanto não fizer senão isso).


 O que faz de umas eleições presidenciais importantes e decisivas não é a análise que delas é feita pelos estrategas políticos, mas o momento histórico em que elas ocorrem, e a relevância do debate público nesse momento para a vida dos cidadãos. Nesse sentido, não pode haver momento mais importante do que este. Sejamos realistas: mesmo antes da pandemia, Portugal encontrava-se, nos seus melhores dias, apenas a navegar à vista. Nos piores dias, era bem pior. Vivemos desde o início deste século crises e recessões, o regresso da emigração em grandes números e o esboroar (ou mesmo colapsar) da confiança nas instituições e nas elites políticas e económicas. Tivemos um primeiro-ministro preso por corrupção, tivemos a austeridade, tivemos a troika.

Se alguma resiliência e criatividade fomos demonstrando, isso diz muito sobre a nossa assinalável coesão como comunidade e sobre os pilares ainda relativamente fortes que o nosso regime democrático construiu (e se acham que não, vejam onde já vão outras democracias ainda mais recentes do que a nossa). Mas a verdade é que não podemos continuar sem uma injeção de visão e estratégia, sem um grande debate nacional que nos comece a revelar os rumos por onde queremos seguir.

Nesse contexto, estas presidenciais por quem ninguém dava nada até há pouco podem vir a ser cruciais para nós.

Há ainda muitos riscos de que assim não seja. Continua a haver o risco de que o nosso parasita de polémicas consiga sequestrar estas eleições para satisfazer a sua obsessão narcísica, mas creio que a maior parte dos outros candidatos estarão avisados para isso. Há sempre o risco de termos umas eleições de casos e populismo, mas compete-nos a nós ser exigentes com quem nelas participa e quem as noticia.

Saibam os candidatos e candidatas estar à altura daquilo de que o país precisa, e saibamos nós puxar por elas e eles, e estas eleições presidenciais ainda poderão fazer muito por nós

De toda a forma, se nestas eleições falarmos de saúde e de ambiente, da educação e da Europa, dos grandes perigos do presente — das alterações climáticas à evasão fiscal — e dos desafios do futuro — da descarbonização ao impacto da inteligência artificial no mundo do trabalho —, já teremos dado um passo enorme num momento difícil. É que, ao contrário do que a política quotidiana às vezes nos quer fazer crer, Portugal não está nunca imune a estas grandes guinadas da história. Pelo contrário, são os países como o nosso, com as suas vulnerabilidades, que sofrem muitas vezes os mais duros embates com estes fenómenos — como vemos agora com a recessão que se segue à pandemia.

Saibam os candidatos e candidatas estar à altura daquilo de que o país precisa, e saibamos nós puxar por elas e eles, e estas eleições presidenciais ainda poderão fazer muito por nós. Da minha parte, independentemente das minhas afinidades e escolhas, estarei aqui para esse exercício, com toda a exigência que tiver de ser.


O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Historiador; fundador do Livre



25/09/2020 01:13:48