Covid-19: Advogados moçambicanos denunciam detenções abusivas da polícia

A Ordem dos Advogados de Moçambique (OAM) denunciou hoje detenções arbitrárias na aplicação do recolher obrigatório noturno na área metropolitana de Maputo, inclusive de doentes e vítimas que fugiam de violência doméstica."Estamos extremamente preocupados com casos de detenções arbitrárias, ao abrigo do recolher obrigatório", disse à Lusa a presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos da OAM, Ferosa Zacarias.Aquela responsável avançou que a polícia está a deter pessoas obrigadas a fugir de casa por violência doméstica, doentes a caminho do hospital e trabalhadores obrigados a ficar nas paragens, devido à falta de transporte público."É escandaloso que uma vítima de violência doméstica seja detida, porque teve de fugir de casa para ir apresentar queixa na esquadra, como é também escandalosa a detenção de alguém que se vê obrigado a procurar atendimento médico", declarou Zacarias.A jurista acusou a polícia de visar pessoas sem recursos nas suas ações de fiscalização do cumprimento do recolher obrigatório, apontando que as autoridades não levam para as esquadras automobilistas encontrados a conduzir sem "razões de força maior" entre as 21:00 e as 04:00.A presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos da OAM acusou ainda os agentes da lei e ordem de colocarem "cidadãos inocentes" em risco de contaminação por covid-19, provocando "aglomerações com detidos nas esquadras"."A atuação da polícia provoca focos de propagação de covid-19 e de outras doenças, porque há aglomerações de pessoas sem máscaras nas esquadras", destacou.Ferosa Zacarias assinalou ainda que as autoridades têm desrespeitado as exceções previstas no decreto sobre o recolher obrigatório, detendo trabalhadores cuja natureza da atividade justifica que estejam na via pública entre as 21:00 e 04:00.Os "abusos da polícia", prosseguiu, foram detetados durante a primeira semana de trabalho de mais de 50 advogados que a ordem destacou para esquadras das cidades de Maputo e da Matola e dos distritos de Boane e Marracuene, na província de Maputo.Na terça-feira, a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido da oposição, considerou inconstitucional o recolher obrigatório em vigor na região do Grande Maputo, defendendo que medidas que afetam direitos fundamentais devem ser aprovadas pela Assembleia da República (AR) e não pelo executivo."O recolher obrigatório a partir das 21:00 é uma séria limitação a um direito fundamental, que é a livre circulação, e isso não pode ser determinado ao abrigo do estado de calamidade pública e pelo executivo, sem o crivo da Assembleia da República", avançou o porta-voz da Renamo na cidade de Maputo, Ivan Mazanga.A cidade de Maputo e os distritos de Matola, Marracuene e Boane vivem sob recolher obrigatório, das 21:00 às 04:00, desde o dia 05 deste mês por um período de 30 dias, .As novas restrições foram decretadas face ao aumento do número de óbitos, internamentos e casos de covid-19, que só em janeiro superaram os números de todo o ano de 2020, concentrando-se em Maputo.Moçambique regista 551 mortes por covid-19 e 51.800 casos de infeção pelo SARS-CoV-2, dos quais 62% são considerados recuperados e 292 estão internados.???????PMA // JHLusa/Fim

05/03/2021 03:34:48