Uma guerra entre criminosos num terraço de Lisboa

Lisboa, três da manhã de 27 de agosto, sexta-feira. Agentes da PSP à paisana vigiam a alameda que separa o Bairro do Lavrado da Rua Nascimento Costa, na zona oriental da capital. Foi aqui que foram instalados alguns dos antigos moradores da Curraleira, um dos ‘supermercados’ de droga demolido há mais de 10 anos. A polícia sabia que aqui se vende heroína e cocaína em plena rua, mas não estava à espera do que veio a acontecer.

Um grupo de 12 homens, fortemente armados e alguns protegidos com coletes à prova de bala semelhantes aos que a polícia usa, tomavam posição no terraço de um dos prédios do bairro social. “É um terraço baixo, num 1º andar, e os polí­cias que estavam a fazer a operação de vigilância viram tudo o que se estava a passar”, explica uma fonte judicial. Do terraço, o grupo tinha vista desimpedida para o outro lado da alameda, onde, segundo a mesma fonte, “começou a trabalhar um grupo rival”. O objetivo daquele aparato seria “mais para amedrontar e marcar posição do que propriamente para fazer uma emboscada com alvos específicos a abater”, mas “se aparecesse alguém, certamente fariam fogo”.

Polícias contra juiz

Os agentes que detetaram o grupo armado chamaram reforços e em poucos minutos um grupo de 30 polícias chegou ao local. Antes de chegarem, os homens ainda fizeram pelo menos dois disparos, que não tinham um alvo definido. Os polícias não foram detetados e conseguiram cercar e invadir o terraço, surpreendendo o grupo armado. “Tiveram de fazer um disparo de aviso para o ar, para os suspeitos largarem as armas”, explica a fonte. “Mas não houve resistência.”

Em menos de meia hora os suspeitos estavam a ser identificados e interrogados na 5ª Esquadra de Investigação Criminal, na Penha de França. Quatro têm cadastro criminal por tráfico de droga e os outros por agressões e extorsão. “São todos conhecidos pela polícia por ligação ao tráfico de droga e a crimes contra a propriedade”, precisa a fonte. Têm entre 17 e 38 anos e estão agora indiciados por crimes que vão da posse de armas ilegais ao tráfico de armas e resistência a funcionário. A polícia apreen­deu €5434 em dinheiro, 228 munições de vários calibres, 12 armas de fogo — entre as quais duas espingardas e uma automática —, sete telemóveis, três coletes balísticos, cinco carregadores municiados e um silenciador artesanal. Mas nem um grama de droga.

Talvez por isso, e apesar dos pesados cadastros e de as armas apreendidas estarem todas em situação ilegal (algumas tinham mesmo o número de série rasurado, o que indica que terão sido furtadas), o juiz de instrução decidiu aplicar medidas de coação relativamente leves. Três dos detidos têm de se apresentar semanalmente na esquadra da PSP e os outros nove ficaram com termo de identidade e residência, a medida de coação mínima aplicada a qualquer arguido que tenha, por exemplo, insultado um vizinho numa discussão ou furtado qualquer coisa num supermercado.

As medidas de coação deixaram os polícias envolvidos na operação “estupefactos” e o oficial nomeado pela PSP para comentar o caso nas televisões não escondeu essa surpresa, ao contrário da reserva habitual nestas ocasiões: “Não eram as medidas que esperávamos”, lamentou o comissário Da­niel Martins. É que, apesar de não ter havido vítimas, o armamento apreendido e a operação montada pelo grupo de suspeitos “evidenciam que estavam prontos para fazer fogo sobre os rivais. Por acaso, desta vez não apareceu ninguém”.

01/12/2021 15:52:10