O elevador social avariou: Portugal já não sobe
Na coluna "Além dos títulos", denunciamos o som de sonhos presos no rés-do-chão: em 2025, apenas 44 mil jovens entraram no ensino superior. Milhares ficaram para trás, condenados pela origem, enquanto o elevador social avariou definitivamente para quem não nasceu do lado certo
Há um barulho estranho quando o elevador social avaria: o som de sonhos a ficarem presos no rés-do-chão, enquanto lá em cima continuam, como sempre, os de poucos.
Quantas vezes já ouvimos promessas de mudança, só para ver sempre as mesmas portas a abrir-se... para os mesmos?
Cresci, como tantos, a ouvir que “quem trabalha chega lá”, que a escola pública, mesmo entre greves e corredores gelados, era escada bastante para quem quisesse subir.
Hoje, porém, para milhares, essa esperança é coisa do passado – um velho elevador parado no rés-do-chão, enquanto o país vê os seus filhos presos à origem, olhos fixos no patamar para onde já ninguém sobe sem ajuda.
Vejam-se os números — para não se dizer que é só sentimento.
Em 2025, foram colocados cerca de 44 mil alunos no ensino superior, o valor mais baixo dos últimos anos — menos seis mil.
Em Beja, Felgueiras ou Vila Real, não foram só estatísticas que ficaram para trás: são jovens reais, impedidos de sonhar com a universidade por falta de vaga, média ou dinheiro.
Maria, filha de um padeiro, ficou de fora. Sem apoio ou explicações privadas. O seu sonho de ascensão social bloqueado por falta de meios, exemplo de uma geração que sente que nasceu do lado errado da porta.
Em Trás-os-Montes, André, 19 anos, hesita. “Não tenho onde ficar, mas não quero desistir.”
E quem pode culpá-lo?
É ilusório afirmar que todos competem em igualdade quando o exame nacional pode pesar até 45% na candidatura ao ensino superior e cada explicação privada, essencial para subir a média, representa mensalmente um custo equivalente ao valor de uma renda de quarto em Lisboa ou Porto.
Ter boas notas numa escola pública carenciada é uma batalha.
Quando faltam recursos, apoios ou sequer aquecimento nas salas, é preciso ser atleta mais resistente que aluno brilhante.
Num sistema que valoriza a soma das médias e dos exames, quem tem acesso a explicações está vários degraus acima — não só pelo conhecimento, mas pelo privilégio financeiro.
A linha de partida está distante para muitos.
E se alguma vez a dúvida foi retórica, hoje é estatística: nos trinta primeiros lugares do ranking, todos são colégios privados. Só na 33.ª posição aparece uma escola pública, com média que nem chega a 14 valores.
Neste país, o mérito continua a ser anunciado. Mas, cada ano, parece mais produto de contexto do que de conquista.
O Estado vigia, mas com indiferença burocrática. Muitos fingem não ver a lenta agonia da escola pública.
O silêncio é ensurdecedor.
No final, quem perde não é só o aluno: o país empobrece cada vez que fecha a porta ao talento.
Propinas anuais de 697 euros (ensino público) até 3.900 (privados), quartos a 1.200 euros em Lisboa. Para muitas famílias, a escolha entre pagar a educação dos filhos ou comprar carne e peixe é real.
Não é só dificuldade: é sobrevivência.
E hoje?
Alguém com o meu percurso, vindo de uma escola pública, sem atalhos nem nomes a abrir portas?
Provavelmente seria apenas mais um a bater… e a ficar do lado de fora.
E o estágio em advocacia — obrigatório, agora com remuneração legalmente imposta — seria acessível?
O que era para ser proteção transformou-se, tantas vezes, em barreira: há quem prefira não contratar, alegando custos, ou resvale para a seleção dos de sempre, os apadrinhados e recomendados.
E quem não traz cartão de visita — o “anónimo” que ocupa o último lugar do auditório, sem contactos nem mãos que o apresentem à porta dos gabinetes — arrisca-se a percorrer intermináveis corredores, onde a esperança se evapora e as portas fechadas ensinam o valor do silêncio.
Hoje, para muitos, conquistar um estágio remunerado sem contactos tornou-se missão ainda mais improvável do que antigamente era conseguir sequer um estágio, mesmo sem remuneração.
O elevador social, agora reservado a poucos, amplia o fosso: separa, com crueldade silenciosa, quem sobe de quem fica no piso térreo.
Se nada mudarmos, mudamos de país sem sair do lugar.
E não perdem só os jovens.
Perde o país, desperdiçando talento, diversidade e futuro em nome de uma igualdade escrita na lei, mas negada na vida real.
Basta olhar para países como Finlândia ou Noruega: romperam o ciclo apostando na escola pública — a receita está ao nosso alcance, se houver vontade.
Enquanto houver quem escreva, fale, proteste, há futuro — mas só se trocarmos o silêncio por indignação.
A questão não é apenas de decência.
É estratégica: continuaremos a aceitar que a lotaria do berço, do endereço e do apelido determine quem pode estudar e trabalhar com dignidade?
O país enfrenta uma encruzilhada decisiva: ou assume a responsabilidade de investir, fiscalizar e reparar o que avariou, ou aceita, de cabeça baixa, assistir à sua juventude condenada a rastejar, despromovida e sem esperança, no rés-do-chão.
Só mudaremos o destino dos jovens se apostarmos, de forma estratégica, na escola pública, em residências para estudantes e no reforço das bolsas. A resposta está ao nosso alcance, se houver vontade política e indignação social.
O elevador social pode estar parado, mas a nossa determinação não tem de ficar presa.
Está nas nossas mãos exigir que ninguém fique condenado ao rés-do-chão.
E nós? Continuaremos simplesmente a olhar?
João Massano, Bastonário da Ordem dos Advogados