Dois Corpos a Boiar. Quem escolhe onde acabamos a vida?
Vivemos mais, mas para quê? Entre lares fechados, silêncios e idosos esquecidos, o abandono cresce atrás de portas trancadas. Esta semana, em “Além dos Títulos”, questiono: quem escolhe como terminamos os nossos dias — e que sociedade somos se fingirmos que não vemos?
E se o lugar onde partilhámos toda a vida se transformar, no fim, na nossa prisão de silêncio?
Quem escolhe onde vai acabar os seus dias?
E se não escolher, quem escolhe por si?
Dois idosos, perto dos noventa anos, passaram décadas juntos num quarto tranquilo de uma casa comum nos arredores da cidade.
Tinham família, apoio domiciliário, um botão de pânico, vaga garantida no novo lar da freguesia — só faltava abrir.
Mas abriu tarde demais.
Quando os bombeiros chegaram, foi para testemunhar o silêncio absoluto: onde antes estava uma cama, flutuavam agora duas vidas apagadas.
Afogamento lento numa sociedade que eterniza o corpo e esquece a presença
No país inteiro, outros idosos afogam-se devagar — não na lama, mas no esquecimento.
Quartos secos, portas fechadas, dias repetidos e uma televisão a servir de companhia.
“Há meses que não vejo o céu azul”, confidencia discretamente uma residente de um lar.
Um estudo nacional recente alerta: 75% dos idosos com demência em lares nunca saem à rua; 28% nunca recebem visita dos filhos.
Em todas as classes sociais, mesmo em lares com jardins, quase 90% não sentem o ar livre durante meses. O abandono é silencioso e igualitário, seja numa instituição de luxo ou num lar modesto.
E você, já pensou em visitar alguém isolado? Já exigiu que o lar da sua terra abra o jardim? Falou disto em casa?
Longevidade: para viver ou para sobreviver fechados?
Vivemos obcecados com a longevidade.
A sociedade, a medicina, os meios de comunicação: todos pressionam para vivermos mais.
Dietas, check-ups, planos anti-idade — queremos mais anos a todo o custo.
Mas para quê?
Para sobreviver numa cama, longe da rua e dos filhos, dias iguais consumidos pelo ruído da televisão?
Quantos anos cabem, afinal, na ausência de sentido, de afeto, de memória?
A solidão não escolhe carteira
“O jardim está ali e eu aqui, há quatro anos sem passear”, desabafa um residente.
“Falar dá trabalho, mas ouvir devia ser obrigatório”, partilha uma cuidadora.
Ninguém está a salvo por viver numa zona nobre ou pagar uma mensalidade elevada. O drama atinge qualquer morada, qualquer conta bancária, qualquer nome.
Internamentos sociais tornam o quadro ainda mais cruel: idosos prontos para ir para casa permanecem semanas ou meses em hospitais.
As famílias, pressionadas pelo trabalho e pelo cansaço, não conseguem cuidar.
Muitas vezes, nem sequer querem assumir. Outros, infelizmente, apropriam-se da pensão do idoso e deixam-no num quarto de hospital, à espera de uma rede que só existe no papel.
A esperança existe
Ainda assim, há quem resista ao fatalismo. Em Braga, em Portimão e noutras cidades, lares abriram jardins e criaram momentos para levar residentes à rua, promover conversas entre gerações, visitar o mercado do bairro ou só sentir o cheiro da terra molhada.
São gestos pequenos, mas cada sorriso arrancado vale o trabalho. Estudos mostram que estas iniciativas baixam a ansiedade, devolvem o humor, devolvem humanidade.
Este drama exige ação — de todos nós
Este drama exige ação — não só do Estado, mas de todos.
Começa em cada autarquia capaz de abrir infraestruturas, em cada governo que pode legislar e fiscalizar, em cada direção de lar que pode promover a formação, em cada cuidador que pode pedir reforço.
E começa também em cada um de nós: visitar, escutar, denunciar o silêncio, exigir jardins abertos. As famílias devem ser chamadas à responsabilidade — primeiro como gesto de afeto, depois como dever social.
O final destas histórias não pode ser repetido.
Milhares boiam devagar nos próprios quartos, nos hospitais, à espera de quem lhes abra uma porta — ou simplesmente fique para ouvir.
Nenhum de nós pode abrir todas as janelas, mas cada gesto aproxima a dignidade dos mais velhos ao futuro justo que desejamos.
O caminho começa agora, com cada visita, cada apelo, cada exigência.
Este futuro está nas nossas mãos. Cada gesto conta. Que sejamos muitos, para abrir muitas janelas.
João Massano, Bastonário da Ordem dos Advogados