“Mais um que está comprado”
“Mais um que está comprado”
Fui à televisão explicar o que a lei diz sobre os casos do Ministro da Administração Interna. A resposta está no título. Da caixa de comentários ao mar de Ceuta: as redes contra quem explica, no Além dos Títulos desta semana.
“Na semana passada, o título desta coluna era de um jovem que queria normalizar o bullying. Esta semana volta a não ser meu.”
Escreveu-o um leitor, por baixo da minha intervenção: “Mais um que está comprado e que fala em horário nobre na TV. Portugal bateu no fundo.”
Escrevi aqui que a manosfera é uma escola de ódio no bolso dos nossos filhos. Faltou dizer onde estudam os adultos.
Na caixa de comentários.
O que eu disse
Disse três coisas.
Primeiro, o inquérito ao atrelado: partindo do que o Ministro disse , “não beneficiando ninguém, não há crime”. O abuso de poder exige a intenção de obter, para si ou para terceiro, benefício ilegítimo, ou de causar prejuízo. Sem essa intenção, não há esse crime. E sublinhei: tudo dependerá do que o Ministério Público apurar.
Segundo, os pagamentos em numerário acima de três mil euros: a lei proíbe-os. É contraordenação. E a ignorância da lei não afasta a responsabilidade de ninguém.
Terceiro, o Estado: é grave não ter onde guardar o que apreende, nem verbas para cumprir ordens de destruição.
Não absolvi ninguém.
A exigência de intenção não é gentileza a um ministro: é a regra que protege o leitor quando um poder o acusar.
Não ilibei o Governo: erro, imprudência e mau juízo pagam-se no Parlamento e nas urnas. Pode não haver crime, haver ilegalidade e justificar-se uma demissão.
Medir a febre não é desejar uma gripe.
O que ouvi de volta
“É só areia para os olhos. Rua.”
“Os portugueses não querem explicações, querem a verdade dos factos.”
Como se explicar fosse a maneira mais sofisticada de mentir.
"Eles devem achar que comemos gelados com a testa." 52 gostos, o mais aplaudido. Sorri.
Nenhum deles discute o que eu disse. Todos discutem quem eu sou. Comprado. Cúmplice. Mais um.
Comprado, numa intervenção em que apontei ao Ministro uma contraordenação e ao Estado uma falha grave. Não interessou.
A sentença estava escrita antes de eu abrir a boca.
Talvez o leitor tenha visto o vídeo e pensado o mesmo: mais um. Não o censuro. É o reflexo do nosso tempo: o polegar desce, a certeza sobe.
O mar de Ceuta
O meu caso é pequeno: vale como sintoma, não como queixa. Mas na mesma semana vi o que custa quando a explicação perde.
O Supremo espanhol decidiu que quem chega a nado não pode ser devolvido de imediato: cada caso exige processo e advogado. No fim de Julho, a notícia correu. No Facebook e no WhatsApp, publicou-se outra sentença: “ a fronteira está aberta ”, com rotas em anexo.
Em 48 horas, mais de 60 mil pessoas atravessaram a fronteira.
A fake news mais perigosa não é a mentira. É a verdade truncada: uma sentença real, um sentido falso.
Aconteceu em Espanha.
Mas o ecrã é o mesmo que o leitor tem na mão. E a próxima verdade truncada pode ser a do seu processo, do seu despedimento, da sua casa.
Ou uma frase sua, tirada do contexto num grupo de WhatsApp, lida por quem nunca o ouviu. Aí, o leitor estará onde eu estive: condenado antes de abrir a boca.
Sente que já não sabe em que acreditar?
Não está só: 76% dos portugueses dizem-se preocupados em distinguir o verdadeiro do falso na internet, diz o Digital News Report .
Duvidar é um direito. O insulto não é.
Da caixa de comentários ao Estreito, o que muda é a escala, não a máquina: premeia quem inflama, castiga quem esclarece.
Em Ceuta, fala-se em, pelo menos, 72 mortos. Escrevo fala-se porque também isto pode estar mal contado.
Morreram por causa de uma sentença que ninguém lhes explicou.
Se quem explica for tratado como cúmplice, os juristas calam-se. A praça não fica vazia: fica entregue a quem grita.
Recuso entregá-la.
Ficar na praça
Três compromissos, a começar pelo meu.
Continuar a explicar, porque custa: no dia em que os juristas só disserem o que a bancada quer ouvir, deixam de servir.
Levar a literacia jurídica à escola e às redes: um país que não distingue crime de contraordenação mete tudo no mesmo saco.
E pedir ao leitor o gesto mais raro: antes de partilhar, ler; antes de insultar, perguntar.
Não escrevo para responder a quem me chamou comprado. Escrevo porque esse leitor, um dia, pode precisar de um advogado.
Nesse dia vai querer exactamente o que esta semana o indignou: alguém que lhe explique a lei tal como ela é, sem medo da bancada.
Nesse dia, estarei lá.
É para isso que servimos.
João Massano, Bastonário da Ordem dos Advogados
Artigo de opinião publicado no Expresso, em 6 agosto de 2026