BCE multa pela segunda vez um banco por falhar regras climáticas
17 de fevereiro, 2026
BCE multa pela segunda vez um banco por falhar regras climáticas
Francês Crédit Agricole demorou 75 dias a cumprir um requisito definido pelo BCE ligado a riscos climáticos e ambientais. Sofreu uma multa periódica de 7,6 milhões de euros. Abanca já foi visado.
O falhanço do cumprimento de metas climáticas está a custar dinheiro aos bancos europeus. Depois do espanhol Abanca, agora foi a vez de o francês Crédit Agricole ter de suportar uma multa periódica que ascendeu até 7,6 milhões de euros. Foi aplicada pelo Banco Central Europeu (BCE), pelo incumprimento de metas que visam conter o risco climático.
Em Fevereiro de 2024, o BCE definiu vários requisitos relacionados com a temática climática, e um deles obrigava o Crédit Agricole “a realizar uma avaliação da materialidade dos seus riscos climáticos e ambientais”, segundo uma nota de imprensa divulgada pela autoridade bancária. O banco francês tinha de reforçar a identificação dos riscos a que estava exposto ou poderia vir a estar – e, não cumprindo os requisitos definidos – teria de pagar uma coima periódica, maior consoante o período de incumprimento.
Segundo o BCE, o incumprimento do Crédit Agricole (não confundir com o banco português Crédito Agrícola, porque não pertencem ao mesmo grupo) estendeu-se por 75 dias, e conduziu à coima total de 7,551,050 euros. Na definição desta sanção, a entidade tem em conta a “materialidade da infracção, a duração da falha e o volume de negócios diário da entidade”.
Citado pela agência financeira Bloomberg, o Crédit Agricole expressou a incredulidade com a sanção, por ser uma matéria “puramente administrativa”, acrescentando que tem os riscos climáticos e ambientais incluídos nos seus modelos. A coima é limitada, tendo em conta a dimensão de lucros de todo o grupo, que se fixaram em quase 8,8 mil milhões de euros em 2025. O grupo francês ainda poderá recorrer para o Tribunal de Justiça da União Europeia. O Crédit Agricole é um dos maiores bancos franceses, a par do BNP Paribas (com um grande centro de operações em Portugal), do BPCE (que está a adquirir o Novo Banco) e do Société Générale.
Inicialmente eram recomendações ou regras mais flexíveis, mas o BCE decidiu colocar um foco mais vinculativo nos instrumentos que foi criando para que os bancos se protegessem dos riscos ambientais e climáticos, tendo em conta a sua actividade: por exemplo, a exposição a determinado sector mais poluente, ou a clientes em zonas mais susceptíveis a catástrofes naturais. Com o auxílio das autoridades nacionais, o BCE supervisiona directamente os grandes bancos europeus, incluindo os portugueses CGD, BCP e Novo Banco - o BPI e o Santander Portugal também estão na sua competência directa, mas incluídos nos grupos bancários que integram, o CaixaBank e o Santander.
O Crédit Agricole é o segundo a ser visado pelo BCE nestas coimas que aplica consoante o tempo da infracção (e que estão a contar até à resolução da infracção). Em Novembro, tinha condenado o grupo espanhol Abanca a uma sanção periódica que totalizava 187.650 euros, um volume muito inferior ao do banco francês.
Mas também nesse caso estava o facto de ter incumprido, por 65 dias, o requisito definido para a avaliação da materialidade dos riscos climáticos e ambientais. O Abanca não contestou a coima, e, por isso, já é final.
Desde 2020 que os bancos têm um guia do BCE precisamente para terem em atenção como lidar com estes riscos, e Frankfurt tem vindo a frisar que não desistiu de ter em conta este tema, apesar da menor atenção que a maior economia do mundo, os Estados Unidos da América, dá ao assunto.
Aliás, no mês passado, o braço de supervisão da instituição concluiu que tem sido bem-sucedido na implementação dos riscos climáticos e ambientais na sua própria actividade, estando integrados nas suas várias áreas de actuação. “Os bancos estão agora mais bem preparados para avaliar os riscos climáticos e naturais, apoiados pelo trabalho de acompanhamento contínuo do BCE, incluindo na emissão de decisões vinculativas quando necessário”, resumiu o conselho de supervisão do BCE, encabeçado pela alemã Claudia Buch e que conta com o português Pedro Machado.
Depois, a nível nacional, também há trabalho feito nesse sentido. No final do ano passado, o Banco de Portugal publicou o seu relatório anual sobre a exposição da banca ao risco climático, reconhecendo esforços mas concluindo, porém, que a banca portuguesa ainda não está a fazer de forma adequada o combate a este risco, necessitando de acelerar a adaptação - mas concluindo que a exposição aos fogos florestais é limitada.
Estes pagamentos de multas periódicas são um instrumento do BCE para levar as instituições ao cumprimento das suas regras, uma sanção que têm de suportar até à conformidade face à regra vinculativa definida pelo supervisor. São distintas das sanções de supervisão propriamente ditas, quando há falhas no reporte de informação e incumprimento dos requisitos de capital.
(Notícia corrigida para rectificar lucro anual do Credit Agricole)