Relações scroll

A lei já não obriga ninguém a ficar preso a um casamento morto: desde 2008, quem quer sair, sai, sem provar culpas. Foi um avanço justo. Mas a lei que abre a porta de saída não ensina ninguém a ficar. O Direito chega sempre no fim, para arrumar os cacos. Nunca a tempo de evitar a queda

 

 Sentaram-se os dois à minha frente e não se olharam uma única vez. Ela escrevia no telemóvel. Ele fixava um ponto na parede. Treze anos de casamento, dois filhos, uma casa por pagar. E, entre eles, um silêncio que já não era zanga. Era cansaço.

 

Não vinham brigar. Vinham entregar os papéis. Vejo cenas destas há quase trinta anos. Antes, as pessoas chegavam feridas, aos gritos. Hoje chegam caladas, educadas, exaustas. Terminam um casamento como quem fecha uma aplicação. Deslizam o dedo. Passam ao seguinte.

 

Deixámos de ter paciência para o outro

 

 Reparo nisto ano após ano. As pessoas já não sabem estar com quem as contraria. Vivemos rodeados de coisas feitas à nossa medida: o telemóvel mostra o que gostamos, a loja adivinha o que queremos, a rede aplaude-nos quando temos razão e esconde quem discorda. Depois vamos para casa, e em casa há uma pessoa que pensa diferente, que se cansa, que tem um dia mau e não nos poupa a ele.

 

E, de repente, essa pessoa parece um defeito. Alguém que devia funcionar como um ecrã: obedecer ao toque, devolver só o que agrada. Mas ninguém ama assim. A diferença não é uma avaria. É o que faz do outro uma pessoa, e não um reflexo nosso.

 

Já vi casais fazer do amor um campeonato: contam pontos, guardam rancores como quem guarda recibos, e ao fim de uns anos ninguém ganhou. Um acumulou ressentimento, o outro solidão. O divórcio quase nunca chega de repente. Vai-se formando, de conversas adiadas e mágoas engolidas. Quando os papéis chegam à minha mesa, o casamento já tinha acabado há muito. Só faltava alguém dizê-lo em voz alta.

 

Um número que devia doer

 

 Em 2023, último ano com contas fechadas, mais de dezassete mil casais divorciaram-se em Portugal, a esmagadora maioria por mútuo consentimento. Parem nessa expressão. Mútuo consentimento. Já nem sobre o fim discutem: a única coisa em que ainda concordam é em acabar.

 

E não são jovens a desistir cedo. A idade média de quem se divorcia anda pelos quarenta e sete, quarenta e nove anos. Gente que construiu uma vida junta, e que se perdeu não por falta de amor, mas por excesso de silêncio.

 

Os filhos, no meio

 

 Há uma imagem que não me sai da cabeça. A da criança que se torna arma. Quando o casal decide que o divórcio é a última batalha a vencer, o filho deixa de ser filho e passa a ser território. Disputa-se. Usa-se como troféu. A lei manda pôr o interesse da criança à frente. A vida, muitas vezes, mostra dois pais a usá-la para se ferirem um ao outro.

 

Quem ganha um filho contra o outro progenitor já perdeu o que importava. E é a criança que paga a factura, anos depois, quando ninguém se lembra de quem tinha razão.

 

Presos à mesma casa

 

 E há os que já se separaram por dentro, mas não conseguem separar-se por fora. Continuam na mesma casa, cada um no seu quarto, porque não há dinheiro para pagar duas. O amor acabou. A prestação continua a chegar a dois.

 

Vejo cada vez mais destes casos. Um casal divorcia-se, combina que um fica com a casa e o crédito, e assina descansado. Mas esse acordo não vale para o banco. Quem assinou o empréstimo continua preso a ele, mesmo já não morando ali. E se o outro deixar de pagar, é a este que o banco bate à porta: a pagar uma casa onde não vive, impedido de comprar aquela onde vai viver.

 

Casas que já custaram um amor. E que continuam a cobrar juros.

 

O que se pode fazer

 

 A lei já não obriga ninguém a ficar preso a um casamento morto: desde 2008, quem quer sair, sai, sem provar culpas. Foi um avanço justo. Mas a lei que abre a porta de saída não ensina ninguém a ficar. O Direito chega sempre no fim, para arrumar os cacos. Nunca a tempo de evitar a queda.

 

Existe a mediação familiar. Está na lei, e quase ninguém a usa: num ano recente, os tribunais receberam dezenas de milhares de processos sobre filhos de pais separados, e o serviço público de mediação umas escassas centenas de pedidos. Devia ser o primeiro passo de qualquer separação com crianças. Não para manter o casal junto. Para o ajudar a separar-se sem se destruir.

 

E, quando o fim chega mesmo, um conselho que dou sempre: não se assina um divórcio como se assina uma encomenda. Procurem quem vos explique o que estão a assinar. Um mau acordo sobre a casa persegue uma pessoa durante anos.

 

Volto àquela mesa. Ao homem que fixava a parede, à mulher que escrevia ao advogado. Não estavam a destruir um amor. Estavam a limpar os escombros de uma conversa que nunca tiveram coragem de ter. As relações não acabam no dia em que se assinam os papéis. Acabam muito antes. Em cada vez que escolhemos ter razão em vez de compreender. Em cada vez que deslizamos o dedo em vez de esperar.

 

Amar não é scroll. Não há seguinte: há esta pessoa, este feitio, este dia mau. E a escolha, todos os dias, entre esperar e deslizar.

 

João Massano, Bastonário da Ordem dos Advogados

Artigo de opinião publicado no jornal Expresso, em 16 de julho de 2026

12/08/2026 06:51:30