"Vamos normalizar o bullying , já há demasiadas gordas a acharem-se importantes"
"Vamos normalizar o bullying , já há demasiadas gordas a acharem-se importantes"
Esta coluna chama-se Além dos Títulos. Esta semana, o título não é meu: escreveu-o um jovem de dezanove anos, num TikTok português. Não o corrigi: é assim que circula .
Um rapaz fotografa-se ao espelho do ginásio. Luz estudada. Veias salientes. Por cima da imagem escreve " a culpa é dos " e fecha a frase com o emoji de um pacote de sumo.
Em inglês, " juice “ soa a ” jews ". Sumo. Judeus.
Quem não conhece o código vê um treino. Quem conhece lê um libelo anti-semita . O código serve para isso: escapar aos filtros das plataformas. E, já agora, ao Código Penal.
O rapaz não está sozinho.
A investigação do Público mapeou cem contas portuguesas de TikTok dentro da manosfera . Quase sete mil vídeos. Mais de cem milhões de visualizações. Oitenta e duas contas de masculinidade tóxica. Vinte e três de ódio ao imigrante. Sete de ódio ao judeu. Tudo embrulhado em dicas de treino, suplementos e versículos bíblicos.
Isto não é uma subcultura. É uma escola. Aberta vinte e quatro horas por dia, no bolso dos nossos filhos.
E quem decide o que se ensina nessa escola?
Não é o pai. Não é o professor. É o algoritmo.
O crime que não chega a tribunal
O Código Penal pune com prisão até cinco anos o incitamento público ao ódio e à violência. O catálogo das características protegidas é extenso: da origem étnico-racial à religião, da nacionalidade ao sexo, da orientação sexual à deficiência.
No papel, a lei chega. Aos tribunais, quase nunca chega.
Entre 2020 e 2023, o Ministério Público abriu 792 inquéritos por crimes de ódio. Catorze acusações. Em 2024, seis condenações.
Leu bem. Seis.
Mais de cem milhões de visualizações de um lado. Seis condenações do outro. A conta está feita.
Porquê?
Porque o dolo não se confessa. Provar a motivação discriminatória é provar porque se odeia. Um emoji não assina confissões. Perante a mensagem cifrada, o tribunal fica com um pacote de sumo e uma dúvida razoável. E a dúvida, num Estado de Direito, absolve.
Assim deve ser.
A liberdade de expressão protege o que choca e incomoda. O direito penal é a última linha, não a primeira. Recuso um país onde se prendem opiniões. Mas recuso também a impunidade travestida de garantia.
O RASI registou 449 crimes de ódio em 2025. Há dez anos foram 19. Doze suspeitos ainda não fizeram dezasseis anos.
Enquanto a justiça pondera, o algoritmo decide. Em segundos. Sem dúvidas razoáveis.
O que a lei não apanha
Ana Rita Barros tem 23 anos. Foi às manhãs da TVI falar da sua vida. Ouviu, em directo , que o apresentador não podia " apresentar um programa onde se normalize que alguém com 120 quilos está bem ".
Cláudio Ramos defendeu-se: a obesidade é uma doença, e há perguntas que têm de poder fazer-se. Tem meia razão. Perguntas sobre saúde pública fazem-se. A uma sociedade, num debate, a um médico. Esta não foi feita a uma doença. Foi feita a uma mulher. Diante do país. A ERC recebeu mais de três dezenas de queixas.
O caso não caiu do céu.
Maria Botelho Moniz já contou o que lhe escrevem sobre o corpo: " nojenta “, ” porca ", porque é que não veste um trinta e seis.
Em 2023, uma vaga de gordofobia atingiu-a a ela e a Cristina Ferreira. Na manosfera , essa lição é doutrina: o corpo gordo é derrota, preguiça, o fundo da hierarquia.
Andrew Tate dizia detestar " comer e pessoas gordas ". O jovem que escreveu o título desta coluna não inventou nada. Aprendeu.
O peso não consta do catálogo penal.
Humilhar alguém pelo corpo, só por si, não é crime. O que a lei oferece é a injúria. A vítima carrega o processo e os encargos. O agressor arrisca, no máximo, uma pena quase simbólica.
Esta fronteira não é penal. É ética. É editorial.
A televisão d a manhã pesa uma convidada. O ginásio digital agradece e toma nota. Não são mundos separados. São a mesma escola. Com horários diferentes.
O que fazer
Aplicar o Regulamento europeu dos Serviços Digitais sem contemplações: quem lucra com o alcance do ódio codificado responde pelos riscos que cria e paga quando não os mitiga.
Treinar quem investiga: magistrados e polícias que saibam ler códigos, memes e redes. A justiça aprendeu a seguir o dinheiro. Falta aprender a seguir o ódio.
Chegar antes do algoritmo. Levar a conversa à escola. Dar aos rapazes outros treinadores: pais, professores, homens que mostrem que força não é submeter ninguém.
O rapaz do espelho volta amanhã.
O algoritmo volta a premiá-lo.
O ódio não falha um treino.
A justiça continua no aquecimento.
João Massano, Bastonário da Ordem dos Advogados
Artigo de opinião publicado no Expresso, em 30 de julho de 2026