A bala, a faca e o silêncio
Sete dias. Três cenas. Meia dúzia de quilómetros. Dias antes, noticiaram-se dois homens baleados de um carro em andamento, em Algueirão-Mem Martins
Segunda-feira, 10 de agosto, seis e meia da tarde. Uma turista sueca compra pastéis de nata numa loja da Rua Augusta, entre centenas de pessoas. A poucos metros, discutem dois grupos que vendem louro prensado a turistas, fingindo que é droga. Alguém saca de uma pistola. A bala falha o rival. Atinge-a a ela.
Quinta-feira, 13. Em Algés, um rapaz de quinze anos alerta a polícia: a mãe está morta em casa há vinte e uma horas. Nesse intervalo, cuidou da irmã de quatro anos e passeou-a de mão dada.
Domingo, 16, meio-dia. No jardim do Cais do Sodré, uma discussão acaba com um jovem de vinte e cinco anos esfaqueado no peito. Funcionários de um quiosque tentam estancar o sangue com roupa. Morre no Hospital de São José.
Sete dias. Três cenas. Meia dúzia de quilómetros. Dias antes, noticiaram-se dois homens baleados de um carro em andamento, em Algueirão-Mem Martins.
O medo e a estatística
Há duas tentações.
O pânico: declarar Lisboa perdida, transformar cada crime em bandeira.
E a estatística: responder às vítimas com percentagens.
Recuso as duas.
Os números devem ser ditos: Portugal é o sétimo país mais pacífico do mundo; a criminalidade violenta e grave desceu 1,6% em 2025, e a geral subiu sobretudo porque se fiscaliza mais.
Mas as estatísticas não dão a realidade toda. A segurança sente-se: no passo que acelera, na mãe que liga ao filho que não chegou. Um país pode ser estatisticamente seguro e concretamente assustado. Governar é responder aos dois.
Antes das vítimas.
Nenhum destes casos caiu do céu.
Os homens que se desentenderam na Rua Augusta eram presença assídua ali, conhecida das autoridades.
Os irmãos de Algés estavam sinalizados desde maio de 2024; o processo seguiu, com caráter prioritário, para o Ministério Público em junho de 2025.
E o Cais do Sodré é, há muito, o aviso que os pais repetem aos filhos que saem à noite. Toda a gente sabe isto. Agora morreu-se lá ao meio-dia.
Nos dois primeiros, o Estado tinha informação sobre as pessoas antes de ter vítimas. No terceiro, tinha-a sobre o lugar.
Não falo por relatórios.
À porta da sede da Ordem dos Advogados, no Largo de São Domingos, há um mercado a céu aberto; os lesados contam-nos que os telemóveis furtados aparecem ali, no ecrã de quem os procura. Pedimos, vezes sem conta, o mesmo: um polícia em permanência. Não é preciso mais.
Reconheço o esforço da esquadra da zona. Mas atravesso Lisboa a pé e não vejo um polícia. Há quase uma invisibilidade. O reforço decretado depois do tiro na Baixa foi correto. O polícia que chega depois da bala é a confissão do que faltou antes dela.
O direito a perceber.
E há uma terceira falha: a comunicação.
O homem detido depois do tiro na Rua Augusta ficou em liberdade, com apresentações periódicas. Gerou-se um clamor de impunidade. Os factos dizem outra coisa: a detenção cumpria um mandado do processo de violência doméstica e a Procuradoria-Geral da República esclareceu que o interrogatório foi “ no âmbito de um inquérito por violência doméstica e apenas por factos desse inquérito ”.
Nenhum juiz pode decidir com base num tiroteio cuja prova não esteja no processo. Não é impunidade. É desinformação. Nada disto foi explicado ao país a tempo: o que são medidas de coação e porque não são uma absolvição.
Quando as instituições não explicam, o espaço público não fica vazio: fica entregue à especulação e a quem faz da raiva profissão.
A justiça deve reserva aos processos, mas deve transparência ao seu funcionamento. Explicar uma decisão não é enfraquecê-la. É defendê-la de quem a quer distorcer.
O que se exige.
Estamos sempre a atuar no fim da linha. É preciso inverter.
Três coisas.
Policiamento de proximidade permanente, não reativo às manchetes. Justiça a tempo: detenção, investigação e decisão a chegar antes da tragédia seguinte. E comunicação institucional: tribunais, Ministério Público e polícias capazes de explicar, de imediato e dentro dos limites do segredo, o que foi decidido e porquê. E diga-se sem rodeios: os direitos, liberdades e garantias não são uma ameaça à segurança. São a diferença entre segurança e arbítrio.
Uma turista levou uma bala quando comprava pastéis de nata.
Um jovem morreu esfaqueado num jardim ao meio-dia.
Uma menina de quatro anos passeou de mão dada com o irmão, com a mãe morta em casa.
A segurança começa na rua. Consolida-se no tribunal. E morre no silêncio.
João Massano, Bastonário da Ordem dos Advogados
Artigo de Opinião, publicado no Expresso Online a 20 de agosto de 2026.