Faltou manutenção!

Isto foi a falta de manutenção”, sentenciaram muitos populares — afinal, em tragédia todos somos engenheiros. Com o café na mão, diagnostica-se a causa à mesa, repete-se a solução: “Quem sabia era eu!” Lá pela Glória, ninguém hesita — bastava ouvir quem sempre avisou, quem garante conhecer cada parafuso da cidade desde pequeno. Entre um gole e uma indignação, multiplicam-se peritos e culpados do dia. O elevador centenário descarrilou, transformando-se num corte aberto na memória coletiva de Lisboa. A cidade mergulha no luto por 16 mortos e dezenas de feridos de várias nacionalidades — e, num instante, responsabilidade tornou-se palavra inevitável em cada conversa. No epicentro da dor, instala-se a dúvida: cumprimos mesmo o nosso dever ou preferimos adiar, distraídos pelo café morno ou pela cerveja do fim do turno? O que vale mais — a rotina cómoda ou a ética do cuidado? Sempre que despachamos tarefas, hipotecamos o futuro e arriscamos vidas. Epicuro ensinava: agir como se estivéssemos sempre sob o olhar atento dos outros. Se todos praticássemos esse rigor, talvez hoje não enterrássemos vítimas de um serviço que falhou. A responsabilidade é coletiva.
João Massano, Bastonário da Ordem dos Advogados

09/06/2026 06:48:30