Justiça com direitos: Esquadra do Rato: vidas que valem menos
Hugo Dias era sem-abrigo. Toxicodependente. Furtou um telemóvel. Dois jovens espancaram-no até à morte. O tribunal deu pena suspensa.
Esquadra do Rato.
Vinte e quatro polícias da PSP. Nove casos entre 2024 e 2025. As vítimas: toxicodependentes, sem-abrigo, estrangeiros.
As mesmas. Sempre as mesmas.
Os vídeos das agressões circularam em grupos de WhatsApp. Sessenta e nove polícias estavam lá. Calaram-se.
Hugo Dias foi espancado na rua. Os do Rato sangraram na cela. Os agressores sabiam o mesmo: ninguém viria reclamar. As fardas mudam. A régua não.
Nenhuma das vítimas escolheu a sua vulnerabilidade. Quem entra numa esquadra entra sob custódia do Estado. Sair ferido é o Estado de Direito a falir. Não há vida de segunda. Não há corpo descartável.
A PSP denunciou.
Pediu inspeção à IGAI. É preciso dizê-lo. Mas a denúncia não absolve quem agrediu. Nenhuma das vítimas escolheu a sua vulnerabilidade. Os agressores escolheram-nas por causa dela.
Quando uma vida pesa menos, nenhuma pesa.
João Massano, Bastonário da Ordem dos Advogados
Artigo de opinião publicado no CM, em 11 de maio de 2026