Justiça com direitos: O Estado Cercado
Quinta-feira, Rabo de Peixe. A PSP deteve oito traficantes em flagrante, entre eles dois chefes da rede local, e apreendeu mais de duas mil doses de cocaína e haxixe. À saída, centenas de pessoas cercaram os agentes. "Tudo o que estava à mão" voou contra as viaturas. Seis disparos para o ar.
De que lado está a rua, quando defende quem lhe vende o veneno?
A resposta dói. Ali, o traficante não é um estranho: é filha, irmão, vizinha, amigo. Paga contas, arranja trabalho, compra lealdades. O Estado chega, prende e parte.
Ele fica. A maioria das pessoas daquela terra não estava no cerco, mas é quem paga por ele. Não aceito desculpas: quem apedreja a polícia ataca o Estado de direito e tem de responder em tribunal, com uma celeridade que se veja. Mas recuso a ilusão de que se corrige com algemas o que se semeou com décadas de abandono.
Não faltou coragem aos agentes. Faltou Estado àquela terra, muito antes das pedras.
A PSP promete voltar. Deve voltar. E deve ficar: enquanto o Estado for visita, será tratado como intruso. Tem de ser vizinho.
Enquanto o Estado for visita, será tratado como intruso.
Artigo de opinião publicado no jornal CM online, em 24 de agosto de 2026