Justiça com direitos: "Trocaram-me as rotinas." E a creche?

Sofia tinha 18 meses. Os pais entregaram-na à porta de casa, às 8h20. Foi encontrada às 16h00, no mesmo carro. Nunca chegou à creche. Quem a transportava trabalha ali há 26 anos. Disse à polícia: "Trocaram-me as rotinas. Matei uma bebé por causa disso."

 

Uma pessoa esquece-se. É para isso que servem as estruturas. A creche esperava-a. Sete horas. Ninguém deu pela falta. O alerta veio dos pais.

 

Num avião contam-se os passageiros antes de levantar voo.

 

Numa creche conta-se quem entra? Todos os dias? A toda a hora? Guardar uma criança é saber onde está.

 

Sempre. Sem depender da memória de ninguém.

 

Entre os pais e a creche há um contrato de guarda. A culpa presume-se: não é a família que prova a falha, é a creche que prova que não falhou.

 

Quem guarda responde também pelo que não fez.

 

Recuso o guião do costume: encontrar uma culpada e deixar tudo igual. Conferir a viatura. Confirmar cada entrada. Ligar aos pais quando falta alguém. Não é tecnologia. É rotina.

 

O inquérito dirá se houve crime e de quem. A pergunta é outra. Quantas creches saberiam, às dez da manhã, que uma criança não chegou?

 

A creche esperava-a. Sete horas. Ninguém deu pela falta.

 

João Massano, Bastonário da Ordem dos Advogados

Artigo de opinião publicano no Correio da Manhã online, a 27 de julho de 2026

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