Justiça com direitos - Volte amanhã
Uma mulher chega ao balcão com o filho ao colo e um papel na mão. Falta uma assinatura, diz o funcionário. Volte amanhã.
Amanhã falta um carimbo. Depois falta a segunda via. A sala está vazia. O computador está ligado. Só falta uma coisa: vontade.
Portugal é governado por quem diz que não. O segurança que escolhe quem entra. O vigilante que decide quem passa da porta. O balcão que exige marcação com a repartição deserta. Não foram eleitos, não respondem perante ninguém e mesmo assim decidem se entramos, se somos atendidos, se o papel segue ou morre.
A lei diz uma coisa. O balcão decide outra. Não é o Estado de Direito. É o Estado do "volte amanhã".
Mas o "volte amanhã" não é para todos. Basta uma cunha, o telefonema certo, o conhecido do conhecido, e a assinatura aparece, a senha salta a fila, a porta abre.
Trancado para quem não tem nome. Escancarado para quem tem padrinho. Já não é arbitrariedade. É desigualdade perante o mesmo direito. Um país não se mede pelos poderes que a Constituição vigia. Mede-se pelos que ninguém fiscaliza. É lá que se sabe quanto vale um direito. E quanto custa não ter padrinho.
Basta uma cunha e a assinatura aparece, a senha salta a fila.
João Massano, Bastonário da Ordem dos Advogados
Artigo de opinião publicado no CM, a 13 de julho de 2026