Justiça Espectáculo

 

O Campus da Justiça foi transformado numa arena. Dentro da sala a juíza é desafiada, acumulando-se incidentes processuais e multas por desrespeito.

Cá fora, os microfones são transformados em púlpito: proclama-se que “todas as acusações são falsas”, acusa-se o MP de voyeurismo e garante-se que os jornalistas “defendem a acusação”. A comunicação social é usada como uma trincheira onde se tenta escrever o veredicto popular antes da decisão judicial.

O caso da grávida da Murtosa mostra o preço desta fogueira mediática: durante meses o arguido foi condenado em manchetes, podcasts e redes sociais. Quando o tribunal absolveu o arguido, ouviram-se gritos de "a juíza não é humana". Ironia: foram cidadãos comuns - 4 jurados populares + 3 juízes - que decidiram. A absolvição por falta de provas foi rejeitada pelo tribunal das redes sociais e da opinião pública.

Estes dois processos expõem a mesma doença: justiça sitiada pelo ruído. Ela deve falar claro e ser compreendida pelo povo, mas nunca refém de likes nem palco de vaidades pessoais. O tribunal não é bunker nem circo - é a última trincheira onde a verdade se decide com base em factos e direito.

Por João Massano, Bastonário da Ordem dos Advogados,

In Correio da Manhã.

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20/04/2026 06:46:34