Morrer dá views
Cinco mortos na Irlanda, sete em Inglaterra, uma influencer no Brasil. Os títulos contam mortes. Além dos títulos trabalha a máquina que as transforma em conteúdo. Esta coluna é sobre ela.
Madrugada de 16 de Agosto. Autoestrada M9, Irlanda. Um BMW entra em contramão e embate de frente num carro onde seguem três mulheres e uma menina de sete anos. Morrem os cinco ocupantes do BMW. O mais novo tinha quinze anos. Dias antes, um deles publicara no TikTok um vídeo a conduzir contra o trânsito, com a etiqueta " wrong side ".
Seis dias depois, em Inglaterra, outro carro em contramão choca com um carro-patrulha na A66. Sete mortos. Dois eram polícias. Dois não tinham dezoito anos.
Duas vezes não é azar. É tendência. Filmar-se em contramão rende visualizações. E o que rende visualizações, o algoritmo distribui.
O catálogo
A contramão é só a montra mais recente.
No desafio do paracetamol, adolescentes de onze, doze, catorze anos competem para ver quem engole mais comprimidos. O fígado não perdoa. A morte chega devagar, dias depois da bravata, quando o vídeo já rendeu o que tinha a render.
Em Espanha, um hospital pediátrico internou vários adolescentes em poucas semanas. Nos Estados Unidos morreu um rapaz de treze anos. Em Portugal ainda não há internamentos registados. A palavra que importa é ainda .
Antes houve o desafio do desmaio: asfixiar-se até perder os sentidos, de telemóvel a gravar. Uma investigação da Bloomberg ligou-o à morte de vinte crianças em ano e meio.
E há a morte vendida com filtro. Marta Kelly tinha trinta e três anos, três filhos, o mais novo com dois anos, e mais de duzentos mil seguidores que acompanhavam a sua rotina de mãe. Fez cirurgias estéticas, teve alta, sentiu-se mal, voltou ao hospital. Morreu na semana passada, no Brasil.
No mesmo feed , as clínicas vendem cirurgias ao pacote, voo e hotel incluídos, com o antes e o depois em trinta segundos. O depois, às vezes, é um caixão.
O algoritmo é editor
Em 1998, The Truman Show pôs Christof, o realizador que emitia a vida de Truman sem ele saber, a justificar-se assim: aceitamos a realidade do mundo tal como nos é apresentada. Era ficção. Hoje, cada adolescente tem o seu Christof: um sistema que decide, vídeo a vídeo, a realidade que lhe é apresentada.
Nylah Anderson tinha dez anos quando o feed lhe mostrou o desafio do desmaio. Morreu a imitá-lo. Durante anos, os tribunais norte-americanos trataram as plataformas como meros intermediários, imunes ao conteúdo alheio.
Em 2024, um tribunal federal de recurso disse o contrário: ao escolher o que recomenda a cada criança, a plataforma já não se limita a transportar discurso de terceiros. Fala por conta própria. A imunidade caiu. E quem fala, responde.
Em França, sete famílias processaram o TikTok; duas raparigas de quinze anos morreram. Em Itália, a morte de uma menina de dez anos obrigou a plataforma a bloquear contas sem idade verificada.
O TikTok responde que remove preventivamente 99,8% dos conteúdos que violam as regras. Os que restam conduzem em contramão.
A lei existe. Falta quem trave.
O Regulamento dos Serviços Digitais impõe às plataformas um elevado nível de privacidade, segurança e protecção dos menores. A 24 de Julho, a Comissão Europeia concluiu, a título preliminar, que as contas de menores no TikTok não cumprem essa exigência. A coima pode chegar a 6% do volume de negócios mundial. Pode. Um dia. Os processos correm ao ritmo do direito; as tendências, ao ritmo do algoritmo.
Em Portugal, o Código Penal pune a instigação pública a um crime e a propaganda do suicídio. São normas pensadas para muros, comícios e jornais. Servem mal um sistema em que a mensagem é escolhida, uma a uma, por uma máquina que aprendeu aquilo a que cada menor não resiste. O miúdo que publica o vídeo é punível. A empresa que decide mostrá-lo a dois milhões de miúdos iguais a ele não é.
Em quase trinta anos de advocacia, habituei-me a chegar depois do mal feito: o direito é quase sempre um serviço de urgência. Desta vez podemos chegar antes: o dano tem fábrica e distribuidor.
Proponho três coisas. Nenhuma é nova.
Verificação de idade a sério, não uma pergunta a que qualquer criança responde com mentira. Desafios letais tratados como conteúdo ilícito, com remoção imediata e sanção por cada hora no ar. E responsabilidade civil das plataformas pelo que o algoritmo recomenda a menores: não pelo que os utilizadores publicam, pelo que a empresa escolhe amplificar. A liberdade de expressão protege quem fala. Não protege a máquina que decide que um rapaz de quinze anos precisa de ver, outra vez, um carro em contramão.
Na Irlanda, ainda decorriam os funerais e já circulavam vídeos novos. O algoritmo está a distribuí-los enquanto lê esta frase.
É para isso que existe.
João Massano, Bastonário da Ordem dos Advogados
Artigo de Opinião, publicado no Expresso Online a 27 de agosto de 2026.