Nunca chegou a casa

Final de tarde. Uma mulher sai do trabalho em Lisboa. Abre a aplicação. Pede um TVDE para casa. O motorista aceitou a viagem. Depois alterou o trajeto. Parou o carro em Monsanto, num local ermo. E violou-a. Não é a primeira vez. Em setembro, outra mulher adormeceu num TVDE e acordou a ser agredida. Teve sorte — apareceu outro carro. Esta não.

Fazem-se mais de 500 mil viagens TVDE por dia em Portugal. Meio milhão de pessoas que entram num carro com um desconhecido. A lei exige registo criminal limpo e proíbe condenados por crimes sexuais. Mas entre a lei e a rua há um vazio que ninguém fiscaliza.

As plataformas sabem a rota contratada. Sabem quando o carro se desvia. A tecnologia existe. A vontade não. Um alerta de desvio de trajeto ou um botão de emergência mudavam esta história.

Quem lucra com cada viagem tem de responder pela segurança de quem viaja. Não é favor. É obrigação. O Estado tem de a impor. As plataformas têm de a cumprir.

Ela abriu uma aplicação para ir para casa. Nunca chegou.

Fez o que qualquer um de nós faz. A próxima pode ser alguém que ama.

João Massano, Bastonário da Ordem dos Advogados

Publicado no CM, em 16 de fevereiro de 2026 

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