Os sorrisinhos

Sempre que dizia que ia falar sobre menopausa: risinhos. De homens. De mulheres. Defendi apoio psicológico aos advogados. Bastou mencionar a menopausa: chacota nas redes.

Fui na mesma. Sentei-me numa mesa sobre menopausa e direitos humanos. Nunca vou conhecer o tema na ótica do utilizador. Não sou mulher. Não vou passar por isto. Mas compreendo o silêncio — e o silêncio é a primeira forma de discriminação.

Pensem numa mulher de 52 anos. Não dorme. Tem afrontamentos. Perde concentração. Do nada, uma reação que ninguém entende — nem ela. Os homens reconhecem a cena, não a causa. As faltas acumulam-se. Demite-se. A empresa perde experiência. Ela perde uma carreira. E o sistema jurídico? Não foi ativado. Três milhões de mulheres em Portugal vivem isto. A maioria sem proteção, sem que alguém pronuncie a palavra. Temos reforma laboral em cima da mesa — ninguém fala disto.

Faço uma promessa: esta conversa não morre aqui. Três milhões não são minoria. São maioria silenciada. Quem tem responsabilidade pública não pode responder com sorrisinhos.

Daqui a dez anos, a pergunta não vai ser quem falou. Vai ser: quem agiu?

 

João Massano, Bastonário da Ordem dos Avogados

Artigo de opinião, publicado no Jornal CM, em 30 de março de 2026

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