Trocou vidas por dinheiro

Quarenta caixões em Crans-montana. O bar Le Constellation ardeu na passagem de ano. Enquanto o tecto se incendiava e uma centena de jovens sufocava, a proprietária, Jessica Moretti, terá corrido à caixa registadora, levado as notas e fugido. Do outro lado, clientes filmavam as chamas em vez de correrem, como se a morte fosse conteúdo para as redes sociais. Entre a ganância e a alienação, perderam-se quarenta vidas. Esta é a sociedade que construímos. É o eco da Kiss, no Brasil: 242 mortos porque ninguém fiscalizou a tempo, ninguém impediu. Treze anos depois, repetimos o horror. A memória é curta: Portugal não escapa. A PSP encerra bares por excesso de lotação, saídas trancadas, falta de segurança. Quantos reabrem na semana seguinte? E quantos funcionam agora acima da capacidade, com extintores vazios, sem plano de evacuação? Temos decretos-lei impecáveis. Temos fiscalização? Vejo isto demasiadas vezes: processos que prescrevem, donos que escapam, vítimas sem justiça. Quando há tragédia, todos prometemos que nunca mais. Até à próxima. Porque preferimos o lucro fácil ao investimento em vidas, e o espetáculo virtual à salvação real. Ficámos bárbaros. E ninguém parou...

João Massano, Bastonário da Ordem dos Advogados

12/02/2026 22:50:51