Discurso de João Sevivas na Expo Jurídica 2004

 

Discurso de João Sevivas na Expo Jurídica 2004
 

 

Discurso proferido por João Sevivas, na qualidade de presidente do IAPI, na Expo Jurídica 2004

5 de Maio de 2004

 

Meus Caros Colegas:
Recebi o vosso convite com o maior entusiasmo, e com o mesmo entusiasmo me apresento, hoje e aqui, perante vós.

Vou falar-vos, muito brevemente, da Advocacia em Prática Isolada.

No dia 9 de Janeiro de 2004, por proposta do Bastonário, foi aprovado pelo Conselho Geral o Instituto dos Advogados em Prática Isolada. É uma estrutura de apoio ao Conselho Geral e Bastonário, para as questões respeitantes aos Advogados que exercem a profissão sem estarem integrados em sociedades ou em empresas, com especial atenção, aos que têm domicílio profissional em áreas do interior mais desfavorecidas.
Assim, este Instituto, o I.A.P.I deve procurar analisar os problemas que especialmente afectem os Advogados que exercem a profissão em prática isolada e propor ao Bastonário e ao Conselho Geral, as necessárias soluções.

Em conformidade, deve tomar as iniciativas e fazer as propostas conducentes a que cada vez mais, os Advogados em prática isolada tenham condições profissionais dignas e prestigiadas, auscultando-os de forma regular, provocando a reflexão e analisando as suas situações e dificuldades;
Podemos, assim, dizer que, dando atenção ao exercício da Advocacia, existem 3 Institutos dentro da Ordem dos Advogados:
O Instituto dos Advogados de Empresa, o Instituto das Sociedades de Advogados e o Instituto dos Advogados em Prática Isolada.

O IAPI é pois o mais novo de todos eles. Dando voz ao seu regimento o IAPI, auscultando as preocupações mais prementes da Advocacia em Prática Isolada, destacou desde logo: A Procuradoria Ilícita, As Nomeações Oficiosas em Direito Penal, e os Julgados de Paz.

Começando por estes últimos, o IAPI realizou o seu 1º Colóquio no dia 20 de Fevereiro em Castro Daire aonde pelos Colegas presentes foram aprovadas todas as alterações legislativas e recomendações por si propostas à lei quadro dos Julgados de Paz e seus decretos regulamentares e que se encontram ao dispor, de todos vós, no site do IAPI da Ordem dos Advogados.

Seguiu-se a Luta contra a Procuradoria Ilícita. O Combate contra todos, os que não sendo Advogados ou Solicitadores com as respectivas inscrições em vigor na Ordem dos Advogados ou Câmara dos Solicitadores, exercem actividades próprias e exclusivas daqueles.

Desde logo, Lutamos e Insistimos que, sem a Criação Legislativa Necessária e Instruções internas para os próprios serviços, a Campanha não passaria de mero alerta para uma realidade tão iníqua, quanto antiga. Neste âmbito da Procuradoria Ilícita, com a ajuda da Delegação de Viseu, promovemos o 2º Colóquio do IAPI, no passado dia 24 de Abril no auditório Mirita Casimiro em Viseu. De todas as nossas posições e da legislação entretanto saída também se dá conta no site da Ordem. Finalmente, quanto ao problema das defesas oficiosas em Direito Penal, depois de a moção nº 9 ter sido aprovada na assembleia extraordinária da nossa Ordem, no Porto, em que consagra a eliminação do nº 3 do art. 64 do CPP, pugnando para que deixe de ser feita a nomeação no despacho de acusação do Mº Pº, e a que nenhuma revisão do Cód. Proc. Penal se referiu até agora, escrevemos carta à senhora ministra da Justiça, constante também do site do IAPI, e a dar-lhe conta do grave erro e omissão que se está a cometer.
Mas queridos colegas isto pouco é, mas valha-nos a penitente consciência de termos poucos meses de vida e sabermos que muito mais se pode, deve e se vai fazer.

Uma nota sobre a nossa profissão:
Ser Advogado é servir, é estar ao lado de quem precisa de nós e nos chama.
É essa a raiz etimológica da palavra ad vocatus, estar ao lado de quem nos chama.
Ser Advogado é a maior honra de quantas possa haver. Ser Advogado de alguém é ser o seu Confidente, o seu Amigo, o Protector, o Amparo, ser a Palavra e a Voz, a Indignação e a Certeza, o Ânimo e a Angústia. E tudo isto, não porque nos paguem um salário, julgo bem que não haveria sal suficiente para tanta carne e para tanta alma. A Advocacia é, na verdade, uma vocação, é um múnus que só engrandece quem a serve.
Se para Homero são as divindades marinhas as raízes do Universo; para Hesíodo, o Caos e o éter, para Tales de Mileto a água, para Pitágoras o número, para Heráclito, o fogo, para o Advogado o seu princípio vital é a Justiça e o seu Semelhante, o outro, as suas preocupações, as suas necessidades e a procura do justo.

E isto meus queridos colegas vale para a Prática Isolada, como vale para as Sociedades de Advogados como vale para a Advocacia em Empresa. Há a tendência para assumir que só a Advocacia em Prática Isolada é absolutamente independente,. Se fosse assim não existiria Advocacia em Sociedades ou em Empresas porque não há advocacia aonde faltar autonomia de vontade e de consciência. Nas Sociedades de Advogados por certo nenhum Advogado é dono da independência e dignidade de outro colega e em nenhuma Empresa, a nenhum patrão, um colega irá alienar essa mesma dignidade e independência. O nosso Estatuto seja em prática isolada, seja em sociedades, seja em empresas é só um porque a Dignidade e Independência é a mesma, porque o Objectivo da Actividade é o mesmo, porque se é sempre Advogado

E hoje como vai a Advocacia?
Os mesmos ideais, a mesma luta, a mesma disponibilidade, seja na prática isolada seja em sociedade, ou numa empresa, mas o Advogado, pelo menos o de prática isolada, vive, hoje, muitíssimo abaixo do nível que merecia ter.
Por um lado, o campo de actuação do Advogado, com o alargamento e criação de outros profissionais e outros serviços seus concorrentes restringiu-se. Por outro lado,
as sistemáticas e inoportunas nomeações oficiosas e atribuição indiscriminado do Apoio Judiciário conduziram a que a Advocacia definhe, e Definha não tanto por o Advogado não receber o que era justo, mas por o obrigarem a desvirtuar e a servir um sistema iníquo, de desigualdade inconcebível perante a lei, e a deixar um pouco da sua alma, por esmolas que o desprestigiam e que mancham a Advocacia.
A Solução está nas nossas mãos. Não pode haver Justiça sem Advogados. E Não se pode Defender a Vida e o Património dos Cidadãos se não tivermos o mínimo de condições dignas para o fazermos. Se o Estado é um mão rotas na atribuição do Patrocínio Oficioso que o seja também no pagamento de justos honorários. Que fiscalize e exerça a sua autoridade no cumprimento da lei reprimindo a procuradoria ilícita. Que proteja, enfim, sem quebra da nossa total independência, quem exerce, afinal, uma actividade de interesse público e legalmente regulamentada.

Vou terminar, não sem antes vos dizer que hoje ser Advogado neste País é Difícil mas ainda assim continua a ser a Profissão mais Prestigiante e Digna de todas as que existem. Porém, Ser Jovem Advogado é ainda muito mais difícil . O jovem advogado começa a trabalhar sem ter direito a uma justa compensação, outras vezes vê-se empurrado para grandes escritórios aonde tem de deglutir batráquios vivos, para conseguir artes e manhas que o desmerecem, em que tem de fazer quase de Joker, pião das nicas, um pouco de moço de recados, ocupado nos trabalhos mais detestados. É urgente que a Ordem dos Advogados apoie mais e melhor a formação dos estagiários. É urgente que a Ordem dos Advogados fiscalize que nenhum Advogado possa jamais vender a sua independência e dignidade a troco de qualquer emprego ou salário estável. É urgente que a Ordem fiscalize para que nenhum colega se sirva da inexperiência de outro. Como é ainda urgente que a vossa juventude inunde de entusiasmo a alma e coração da nossa Ordem. Finalmente é urgente a vossa voz e a vossa acção pois é nos jovens Advogados que reside a essência, a certeza e o futuro desta profissão.

Bem – Haja.
João Sevivas

18/01/2026 22:44:05